Transtorno Bipolar
Revisão completa do transtorno bipolar para a residência em psiquiatria: conceitos básicos e espectro bipolar, episódios afetivos, epidemiologia, etiologia, fisiopatologia, critérios diagnósticos nos três sistemas classificatórios vigentes, alterações psicopatológicas, diagnóstico diferencial, prognóstico e plano de tratamento (CANMAT/ISBD), encerrando com um anexo de atualização de literatura dos últimos 12 meses.
Introdução
O transtorno bipolar (TB) é uma das condições mais desafiadoras da clínica psiquiátrica, tanto pela heterogeneidade de suas manifestações quanto pelo impacto que produz sobre a funcionalidade, a expectativa de vida e a qualidade de vida de quem o vivencia. Trata-se de um transtorno mental grave, crônico e recorrente, caracterizado por oscilações patológicas do humor que alternam entre polos de exaltação (mania ou hipomania) e de rebaixamento (depressão), intercalados, na maioria dos casos, por períodos de eutimia de duração variável.
Historicamente descrito já na Antiguidade clássica — Areteu da Capadócia, no século I d.C., associou mania e melancolia como expressões de uma mesma diátese —, o conceito moderno de doença maníaco-depressiva deve-se sobretudo a Emil Kraepelin, que no final do século XIX unificou os quadros de exaltação e de depressão sob uma única entidade nosológica, distinguindo-a da demência precoce (posteriormente esquizofrenia) com base no curso periódico e na ausência de deterioração cognitiva progressiva. O termo "transtorno bipolar", consagrado a partir do DSM-III (1980), substituiu a antiga denominação para enfatizar a bipolaridade do humor como eixo organizador do quadro, em contraposição à unipolaridade da depressão maior.
Para o médico residente, o domínio do TB exige mais do que a memorização de critérios diagnósticos: implica compreender a fisiopatologia neurobiológica subjacente, reconhecer as nuances psicopatológicas que diferenciam a exaltação normal da patológica, dominar os sistemas classificatórios vigentes (DSM-5-TR, CID-10 e CID-11) e construir um raciocínio terapêutico que integre farmacologia, psicoeducação e manejo de crises. Este capítulo busca oferecer uma revisão estruturada e atualizada desses eixos, servindo como material de apoio ao estudo e à prática clínica supervisionada durante a residência em psiquiatria.
Conceitos básicos
2.1 Definição e o espectro bipolar
O transtorno bipolar é definido pela ocorrência de episódios de humor que se desviam significativamente da linha de base do indivíduo, no sentido da elevação (mania/hipomania) ou do rebaixamento (depressão), com repercussão sobre cognição, comportamento, energia e funcionamento psicossocial. A noção de "espectro bipolar", proposta sobretudo por Hagop Akiskal, amplia a compreensão categorial clássica para incluir apresentações subsindrômicas e temperamentos afetivos (hipertímico, ciclotímico, irritável) que conferem risco aumentado de conversão para quadros plenos, reconhecendo um contínuo de gravidade entre a normalidade afetiva e as formas mais graves da doença.
Do ponto de vista nosográfico, distinguem-se três formas nucleares: o Transtorno Bipolar tipo I (TB-I), caracterizado pela presença de ao menos um episódio maníaco (com ou sem episódios depressivos maiores); o Transtorno Bipolar tipo II (TB-II), definido pela ocorrência de ao menos um episódio hipomaníaco e um episódio depressivo maior, na ausência de mania plena; e o Transtorno Ciclotímico, quadro crônico e de menor amplitude, com numerosos períodos hipomaníacos e depressivos subsindrômicos que não preenchem critérios completos para episódios maiores, presentes por pelo menos dois anos (um ano em crianças e adolescentes).
2.2 Episódio maníaco
Caracteriza-se por um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável, associado a aumento anormal e persistente da energia ou atividade dirigida a objetivos, com duração mínima de uma semana (ou qualquer duração se houver necessidade de hospitalização), presente na maior parte do dia, quase todos os dias. Acompanha-se de sintomas como autoestima inflada ou grandiosidade, redução da necessidade de sono, loquacidade ou pressão para continuar falando, fuga de ideias ou experiência subjetiva de pensamento acelerado, distratibilidade, aumento da atividade dirigida a metas ou agitação psicomotora, e envolvimento excessivo em atividades de alto potencial para consequências dolorosas (gastos excessivos, indiscrições sexuais, investimentos financeiros insensatos). A perturbação deve ser suficientemente grave para causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou ocupacional, necessitar hospitalização, ou apresentar características psicóticas.
2.3 Episódio hipomaníaco
Compartilha a mesma qualidade sintomática do episódio maníaco, porém com duração mínima de quatro dias consecutivos e intensidade insuficiente para causar prejuízo funcional marcante, necessidade de internação ou sintomas psicóticos. A mudança de comportamento é observável por terceiros, mas o quadro não rompe de forma disruptiva o funcionamento do indivíduo — o que, paradoxalmente, dificulta seu reconhecimento clínico e favorece a subnotificação e o subdiagnóstico do TB-II.
2.4 Episódio depressivo maior
Segue os critérios sindrômicos clássicos de humor deprimido e/ou anedonia por, no mínimo, duas semanas, associados a alterações do sono, apetite/peso, psicomotricidade, energia, concentração, autoestima (sentimentos de culpa ou inutilidade) e ideação de morte ou suicida. No contexto bipolar, a depressão tende a apresentar, com maior frequência que a depressão unipolar, características atípicas (hipersonia, hiperfagia, letargia, sensibilidade à rejeição), lentificação psicomotora mais acentuada, labilidade afetiva e sintomas mistos.
2.5 Episódios com características mistas
Correspondem à presença simultânea de sintomas do polo oposto durante um episódio predominantemente maníaco, hipomaníaco ou depressivo — por exemplo, agitação psicomotora e taquipsiquismo em meio a um quadro depressivo, ou labilidade emocional e ideação de morte durante uma mania. O DSM-5-TR abandonou a categoria de "episódio misto" propriamente dita (presente no DSM-IV), substituindo-a pelo especificador "com características mistas", aplicável a episódios maníacos, hipomaníacos ou depressivos que apresentem ao menos três sintomas do polo contrário. Estados mistos associam-se a maior gravidade clínica, maior risco de suicídio, pior resposta a monoterapias convencionais e maior taxa de cronificação.
2.6 Ciclagem rápida
Especificador aplicável quando ocorrem quatro ou mais episódios de humor (maníacos, hipomaníacos ou depressivos) em um período de doze meses, com remissão completa ou parcial entre eles, ou viragem direta para um episódio de polaridade oposta. Associa-se a pior prognóstico, maior resistência terapêutica e necessidade de vigilância quanto ao uso de antidepressivos, que podem precipitar ou perpetuar o padrão.
Epidemiologia
Estudos epidemiológicos internacionais de grande porte, como o World Mental Health Survey Initiative da Organização Mundial da Saúde, estimam a prevalência ao longo da vida do espectro bipolar (TB-I, TB-II e formas subsindrômicas) em torno de 2,4% da população mundial, com o TB-I isoladamente apresentando prevalência de aproximadamente 0,6% e o TB-II cerca de 0,4%, variando conforme a metodologia e os critérios diagnósticos empregados. No Brasil, estudos de base populacional (como o São Paulo Megacity Mental Health Survey) encontraram prevalências compatíveis com os achados internacionais, reforçando o caráter universal do transtorno, embora com alguma variabilidade transcultural na expressão sintomática e no reconhecimento diagnóstico.
A idade média de início situa-se entre 18 e 25 anos, sendo relativamente rara a estreia após os 50 anos — quadro que, quando ocorre, exige investigação cuidadosa de causas orgânicas e secundárias. Não há diferença marcante de prevalência entre os sexos para o TB-I, mas o TB-II e os estados de ciclagem rápida parecem discretamente mais frequentes em mulheres, que também apresentam maior vulnerabilidade a episódios depressivos, comorbidade com transtornos da tireoide e períodos de risco específicos associados ao ciclo reprodutivo (puerpério, em particular). O TB figura entre as principais causas de incapacidade em adultos jovens segundo o Global Burden of Disease Study, dado o início precoce, a cronicidade e o impacto funcional cumulativo ao longo da vida.
O atraso diagnóstico é um problema relevante: estima-se que o intervalo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico correto de TB alcance de cinco a dez anos, sobretudo quando a doença se apresenta inicialmente por episódios depressivos — situação em que o diagnóstico de transtorno depressivo unipolar é frequentemente estabelecido antes que um episódio hipomaníaco ou maníaco se manifeste e permita a reclassificação diagnóstica.
Etiologia
4.1 Genética
O transtorno bipolar figura entre os transtornos psiquiátricos com maior componente hereditário, com estimativas de herdabilidade situadas entre 60% e 85% a partir de estudos com gêmeos, adoção e agregação familiar. Familiares de primeiro grau de portadores de TB apresentam risco de cinco a dez vezes maior de desenvolver o transtorno em comparação à população geral, e o risco cumulativo aumenta quando ambos os genitores são afetados. Estudos de associação ampla do genoma (GWAS) identificaram múltiplos loci de risco de efeito pequeno e aditivo, com destaque para genes envolvidos na sinalização de canais de cálcio dependentes de voltagem (CACNA1C), no gene ANK3 (relacionado à excitabilidade neuronal) e em regiões que se sobrepõem parcialmente ao risco genético compartilhado com esquizofrenia e transtorno depressivo maior, corroborando um modelo poligênico de risco compartilhado entre transtornos psiquiátricos maiores, mais do que categorias diagnósticas estanques.
4.2 Fatores ambientais e neurodesenvolvimentais
Apesar do peso genético substancial, fatores ambientais atuam como moduladores de penetrância e como gatilhos de episódios em indivíduos geneticamente predispostos, segundo o clássico modelo de diátese-estresse. Entre os fatores mais consistentemente associados destacam-se: eventos estressores na infância (abuso físico, sexual ou emocional, negligência), privação de sono e desregulação do ritmo circadiano (inclusive como gatilho direto de viragens maníacas), uso de substâncias psicoativas (sobretudo estimulantes e canabinoides), complicações obstétricas e perinatais, e eventos vitais estressantes na vida adulta, especialmente aqueles que perturbam rotinas sociais e biológicas (jet lag social, mudanças de turno de trabalho, luto, rupturas afetivas). O temperamento afetivo pré-mórbido (hipertímico ou ciclotímico) e traços de impulsividade também têm sido descritos como marcadores de vulnerabilidade e como pródromos comportamentais precoces do transtorno.
Fisiopatologia
A fisiopatologia do transtorno bipolar permanece incompletamente elucidada, mas a integração de achados de neuroimagem, neuroquímica, imunologia e biologia celular tem convergido para um modelo multifatorial, no qual disfunções de circuitos límbico-corticais, desregulação de sistemas de neurotransmissão, disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), ativação imune-inflamatória de baixo grau e comprometimento da bioenergética mitocondrial interagem para produzir instabilidade do humor e, ao longo do curso da doença, um processo de neuroprogressão.
5.1 Circuitos neurais e neurotransmissão
Estudos de neuroimagem estrutural e funcional apontam disfunção de circuitos que conectam o córtex pré-frontal ventral e orbitofrontal, o cíngulo anterior, a amígdala, o hipocampo e o estriado ventral — regiões envolvidas na regulação top-down das emoções e no processamento de recompensa. Na mania, observa-se hiperatividade de estruturas límbicas (amígdala, estriado ventral) associada a hipoatividade relativa de regiões pré-frontais reguladoras, configurando um padrão de desinibição límbica. Na depressão bipolar, o padrão é mais heterogêneo, com hipoatividade pré-frontal e alterações da conectividade dos circuitos de recompensa relacionadas à anedonia. Em termos de neuroquímica clássica, o modelo monoaminérgico permanece relevante, com evidências de disfunção dopaminérgica (hiperfunção relativa na mania, hipofunção na depressão), envolvimento serotoninérgico e noradrenérgico, e papel crescente atribuído à neurotransmissão glutamatérgica (excesso de sinalização excitatória) e GABAérgica (redução da inibição), o que fundamenta, em parte, o mecanismo de ação de estabilizadores do humor como o valproato e a lamotrigina.
5.2 Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e sistema imune-inflamatório
Alterações do eixo HPA, incluindo hipercortisolemia e resposta anômala ao teste de supressão pela dexametasona, são descritas tanto na mania quanto na depressão bipolar, refletindo desregulação da resposta ao estresse. Paralelamente, um corpo crescente de evidências aponta para um estado pró-inflamatório de baixo grau no TB, com elevação de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-alfa, PCR) durante episódios agudos, sobretudo na mania, sugerindo que a ativação imune-inflamatória contribua tanto para a fisiopatologia aguda quanto para a neuroprogressão e para a elevada comorbidade cardiometabólica observada nesses pacientes.
5.3 Achados de neuroimagem estrutural
Estudos de ressonância magnética estrutural demonstram, em pacientes com TB estabelecido, redução de volume em regiões pré-frontais e do hipocampo, aumento de volume dos ventrículos laterais e, com relativa frequência, hiperintensidades da substância branca subcortical (achado inespecífico, mas mais prevalente que na população geral). Tais alterações tendem a se acentuar com o número de episódios e o tempo de doença, sustentando a hipótese de neuroprogressão — isto é, a noção de que episódios afetivos sucessivos não são meramente recorrências de um mesmo estado, mas eventos com potencial neurotóxico cumulativo.
5.4 Disfunção mitocondrial, estresse oxidativo e neuroprogressão
Modelos contemporâneos, sistematizados sobretudo pelos trabalhos de Kapczinski, Berk e colaboradores, propõem que o TB seja uma condição sistêmica com componente neuroprogressivo: episódios de humor repetidos associam-se a estresse oxidativo, disfunção mitocondrial, redução de fatores neurotróficos (como o BDNF, cujos níveis periféricos reduzem-se durante episódios agudos e se normalizam parcialmente na eutimia) e encurtamento telomérico, todos marcadores biológicos de "carga alostática" cumulativa. Esse modelo tem implicações clínicas diretas: quanto maior o número de episódios prévios, menor tende a ser a resposta a estabilizadores do humor (fenômeno descrito como perda de resposta ao lítio em estágios avançados) e maior o comprometimento cognitivo e funcional interepisódico — o que reforça a importância da intervenção precoce e da prevenção de recorrências como estratégia neuroprotetora.
Critérios diagnósticos e codificação
A avaliação diagnóstica do transtorno bipolar apoia-se atualmente em três sistemas classificatórios de uso corrente: a quinta edição revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR, 2022), a décima revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), ainda amplamente utilizada no Brasil para fins de registro em prontuário e codificação administrativa, e a décima primeira revisão (CID-11), adotada pela Organização Mundial da Saúde desde 2022 e em processo de implementação nacional.
6.1 DSM-5-TR
O DSM-5-TR mantém a estrutura categorial estabelecida pelo DSM-5, agrupando os "Transtornos Bipolar e Relacionados" em capítulo próprio, posicionado entre os transtornos do espectro da esquizofrenia e os transtornos depressivos — disposição que reflete a compreensão desses quadros como uma ponte nosológica entre ambos os domínios. O diagnóstico de Transtorno Bipolar tipo I exige a presença de ao menos um episódio maníaco ao longo da vida (Critério A), não sendo necessária a ocorrência de episódio depressivo para o diagnóstico, embora este esteja presente na esmagadora maioria dos casos ao longo do curso. Excluem-se quadros mais bem explicados por transtorno esquizoafetivo, esquizofrenia, transtorno esquizofreniforme, transtorno delirante ou outro transtorno do espectro da esquizofrenia. O Transtorno Bipolar tipo II requer história de ao menos um episódio hipomaníaco e um episódio depressivo maior, associada à ausência de qualquer episódio maníaco ao longo da vida. O Transtorno Ciclotímico exige numerosos períodos com sintomas hipomaníacos e numerosos períodos com sintomas depressivos que não satisfazem critérios completos, por pelo menos dois anos, sem período livre de sintomas superior a dois meses consecutivos.
São ainda descritos: Transtorno Bipolar e Relacionado Induzido por Substância/Medicamento; Transtorno Bipolar e Relacionado Devido a Outra Condição Médica; Outro Transtorno Bipolar e Relacionado Especificado; e Transtorno Bipolar e Relacionado Não Especificado — categorias residuais aplicáveis a apresentações clinicamente significativas que não satisfazem plenamente os critérios das formas nucleares (por exemplo, episódios hipomaníacos de curta duração associados a episódios depressivos maiores, ou hipomania sem episódio depressivo prévio).
Especificadores relevantes incluem: gravidade atual (leve, moderada, grave), presença de características psicóticas (congruentes ou incongruentes com o humor), características mistas, ciclagem rápida, características melancólicas ou atípicas, catatonia, início no periparto, e padrão sazonal — especificadores que, embora não alterem o código diagnóstico central, orientam de forma significativa a escolha terapêutica e o prognóstico.
| Categoria diagnóstica (DSM-5-TR) | Código DSM-5-TR | Critério nuclear |
|---|---|---|
| Transtorno Bipolar tipo I | F31.xx (código varia por episódio/gravidade) | Ao menos 1 episódio maníaco |
| Transtorno Bipolar tipo II | F31.81 | Episódio hipomaníaco + episódio depressivo maior, sem mania |
| Transtorno Ciclotímico | F34.0 | Sintomas hipomaníacos e depressivos subsindrômicos ≥ 2 anos |
| Bipolar/relacionado induzido por substância | F1x.x | Sintomas atribuíveis a substância/medicamento |
| Bipolar/relacionado devido a condição médica | F06.3x | Sintomas atribuíveis a condição médica geral |
| Outro transtorno bipolar/relacionado especificado | F31.89 | Sintomas significativos, critérios incompletos |
| Transtorno bipolar/relacionado não especificado | F31.9 | Quadro atípico, sem especificação |
6.2 CID-10
Na CID-10, o transtorno bipolar está classificado no capítulo V (Transtornos Mentais e Comportamentais), sob a categoria F31 — Transtorno Afetivo Bipolar, definida por episódios repetidos (ao menos dois) nos quais o humor e o nível de atividade do paciente encontram-se profundamente perturbados, ora em elevação (mania ou hipomania), ora em rebaixamento (depressão), com recuperação geralmente completa entre os episódios. A CID-10 é particular ao exigir, para o diagnóstico de F31, a ocorrência de pelo menos dois episódios de humor, sendo pelo menos um deles maníaco, hipomaníaco ou misto — de modo que um único episódio maníaco isolado, sem episódio prévio, seria codificado como F30 (Episódio Maníaco), e não como F31, distinção conceitual relevante em relação ao DSM-5-TR, que autoriza o diagnóstico de TB-I já no primeiro episódio maníaco.
| Código CID-10 | Descrição |
|---|---|
| F30 | Episódio maníaco (isolado, sem episódio prévio) |
| F31.0 | Transtorno afetivo bipolar, episódio atual hipomaníaco |
| F31.1 | Transtorno afetivo bipolar, episódio atual maníaco sem sintomas psicóticos |
| F31.2 | Transtorno afetivo bipolar, episódio atual maníaco com sintomas psicóticos |
| F31.3 | Transtorno afetivo bipolar, episódio atual depressivo leve ou moderado |
| F31.4 | Transtorno afetivo bipolar, episódio atual depressivo grave sem sintomas psicóticos |
| F31.5 | Transtorno afetivo bipolar, episódio atual depressivo grave com sintomas psicóticos |
| F31.6 | Transtorno afetivo bipolar, episódio atual misto |
| F31.7 | Transtorno afetivo bipolar, atualmente em remissão |
| F31.8 | Outros transtornos afetivos bipolares (inclui TB-II) |
| F31.9 | Transtorno afetivo bipolar não especificado |
| F34.0 | Ciclotimia |
6.3 CID-11
A CID-11, adotada formalmente pela Assembleia Mundial da Saúde a partir de 2022, reformulou de modo substancial o capítulo dos transtornos do humor, aproximando-se estruturalmente do modelo do DSM-5 ao reconhecer o TB-I e o TB-II como categorias distintas (e não mais reunidas em uma única rubrica, como na CID-10), além de introduzir uma arquitetura de codificação mais granular, com especificadores de episódio atual, gravidade, presença de sintomas psicóticos e status de remissão embutidos no próprio código alfanumérico.
| Código CID-11 | Descrição |
|---|---|
| 6A60 | Transtorno bipolar tipo I |
| 6A60.0 / 6A60.1 | Episódio atual maníaco, sem / com sintomas psicóticos |
| 6A60.2 | Episódio atual hipomaníaco |
| 6A60.3–6A60.8 | Episódio atual depressivo (leve a grave, com/sem sintomas psicóticos) |
| 6A60.9 / 6A60.A | Episódio atual misto, sem / com sintomas psicóticos |
| 6A60.B–6A60.F | Em remissão parcial ou completa (por polaridade do último episódio) |
| 6A61 | Transtorno bipolar tipo II |
| 6A61.0 | Episódio atual hipomaníaco |
| 6A61.1–6A61.6 | Episódio atual depressivo (leve a grave) |
| 6A61.7–6A61.A | Em remissão parcial ou completa |
| 6A62 | Transtorno ciclotímico |
| 6A6Y | Outro transtorno bipolar ou relacionado especificado |
| 6A6Z | Transtorno bipolar ou relacionado, não especificado |
Do ponto de vista prático para o residente, a principal diferença conceitual entre os três sistemas está em: (i) o DSM-5-TR permite o diagnóstico de TB-I a partir de um único episódio maníaco; (ii) a CID-10 reserva F31 para quadros com dois ou mais episódios, classificando episódio maníaco único como F30; e (iii) a CID-11 aproxima-se do modelo DSM ao reconhecer TB-I e TB-II como categorias autônomas desde o início do quadro, com codificação que já embute o episódio atual e seu status de remissão — tornando a notação diagnóstica mais informativa e reduzindo a necessidade de códigos suplementares.
Alterações psicopatológicas relevantes
O exame psicopatológico minucioso permanece o instrumento central para a caracterização longitudinal e transversal do transtorno bipolar, permitindo diferenciar apresentações clínicas que, embora compartilhem a mesma etiqueta diagnóstica, correspondem a fenômenos mentais distintos e exigem condutas terapêuticas diferenciadas.
7.1 Exame psíquico no episódio maníaco
- Humor e afeto: eufórico, expansivo, contagiante ou, alternativamente, irritável e hostil (mania disfórica), com labilidade afetiva acentuada e explosividade diante de contrariedades.
- Psicomotricidade: hipercinesia, inquietação, gestos amplos, por vezes agitação psicomotora franca.
- Curso e forma do pensamento: taquipsiquismo (aceleração do curso do pensamento), fuga de ideias, associações por assonância ou contiguidade, tangencialidade — nos quadros mais graves, o discurso torna-se incompreensível pela velocidade e pela perda do fio condutor lógico.
- Conteúdo do pensamento: ideias de grandeza, hiperbólicas ou francamente delirantes (delírios de grandeza, místico-religiosos, de identidade especial), por vezes delírios persecutórios secundários à grandiosidade.
- Sensopercepção: alucinações congruentes com o humor (vozes que confirmam a grandiosidade) podem estar presentes nas formas psicóticas.
- Linguagem: logorreia, pressão de fala, tom de voz elevado, dificuldade de interrupção do discurso.
- Atenção e concentração: distratibilidade marcante, com desvio fácil da atenção por estímulos irrelevantes.
- Insight: tipicamente comprometido — a crítica sobre o caráter patológico do estado costuma estar ausente ou muito reduzida, o que frequentemente dificulta a adesão espontânea ao tratamento e pode justificar intervenção involuntária.
- Volição e conduta: desinibição comportamental, hipersexualidade, gastos impulsivos, envolvimento em atividades de risco, redução da necessidade de sono sem fadiga subjetiva correspondente.
7.2 Exame psíquico no episódio hipomaníaco
Fenomenologicamente semelhante ao quadro maníaco, porém de menor intensidade: o aumento de energia, a loquacidade e a autoconfiança são perceptíveis a terceiros e representam uma mudança clara em relação ao funcionamento habitual do indivíduo, mas não desorganizam de forma evidente o funcionamento social ou ocupacional, não determinam necessidade de internação e não se acompanham de sintomas psicóticos. Por vezes o próprio paciente relata a hipomania de forma positiva — maior produtividade, criatividade e sociabilidade —, o que exige anamnese ativa e, idealmente, heteroanamnese com familiares para sua identificação retrospectiva.
7.3 Exame psíquico no episódio depressivo bipolar
- Humor: tristeza, anedonia, apatia; frequentemente associado a maior lentificação psicomotora (retardo) que na depressão unipolar.
- Psicomotricidade: lentificação (mais típica) ou, em quadros mistos, agitação.
- Pensamento: bradipsiquismo, ideias de desesperança, inutilidade, culpa, ruína; ideação de morte e suicida requerem avaliação sistemática de risco em toda consulta.
- Vegetativo: hipersonia e hiperfagia são mais características da depressão bipolar do que da unipolar (padrão "atípico"), embora insônia e anorexia também ocorram.
- Sensopercepção: alucinações e delírios congruentes com o humor (culpa, ruína, niilismo, síndrome de Cotard nos quadros mais graves) podem estar presentes nas formas psicóticas.
- Insight: geralmente preservado quanto ao sofrimento, mas o paciente pode não reconhecer episódios hipomaníacos prévios como patológicos, o que compromete a anamnese e favorece o subdiagnóstico do TB.
7.4 Estados mistos
Constituem um dos maiores desafios semiológicos da prática psiquiátrica: a coexistência de sintomas de polaridade oposta no mesmo período (por exemplo, humor deprimido com taquipsiquismo, agitação e redução da necessidade de sono, ou euforia com ideação de morte) confere risco especialmente elevado de comportamento suicida impulsivo, dada a combinação de desesperança (típica da depressão) com energia e desinibição comportamental (típica da mania) — combinação farmacologicamente perigosa quando não reconhecida, sobretudo pelo risco de piora sob monoterapia com antidepressivos.
7.5 Sintomas psicóticos no transtorno bipolar
Podem ocorrer tanto em episódios maníacos quanto depressivos graves, sendo classificados como congruentes com o humor (delírios de grandeza na mania, delírios de culpa e ruína na depressão) ou incongruentes com o humor (delírios persecutórios, de controle ou alucinações sem relação temática com a polaridade afetiva) — estes últimos associados a pior prognóstico e maior sobreposição fenomenológica com o espectro esquizofrênico, exigindo diagnóstico diferencial cuidadoso com transtorno esquizoafetivo.
Diagnósticos diferenciais
A ampla sobreposição fenomenológica entre o transtorno bipolar e diversas outras condições médicas e psiquiátricas exige raciocínio diagnóstico sistemático, sobretudo diante da relevância terapêutica e prognóstica de diferenciá-lo corretamente.
8.1 Transtorno depressivo maior (unipolar)
O diagnóstico diferencial mais frequente e clinicamente relevante, dado que a maioria dos pacientes com TB procura o serviço de saúde durante um episódio depressivo. Elementos que aumentam a suspeita de bipolaridade subjacente incluem: início precoce da depressão (antes dos 25 anos), múltiplos episódios depressivos de curta duração, características atípicas (hipersonia, hiperfagia), sintomas psicóticos ou catatônicos em idade jovem, história familiar de TB, viragem hipomaníaca ou maníaca associada ao uso de antidepressivos, e temperamento hipertímico ou ciclotímico pré-mórbido. O uso de instrumentos de rastreio como a Hypomania Checklist (HCL-32) e o Mood Disorder Questionnaire (MDQ) pode auxiliar, embora não substitua a anamnese clínica detalhada e, idealmente, a heteroanamnese.
8.2 Transtorno de personalidade borderline
Compartilha com o TB a labilidade afetiva e a impulsividade, porém distingue-se pela reatividade situacional e curta duração das oscilações de humor (horas, em resposta a eventos interpessoais, em vez de dias a semanas de forma mais autônoma), padrão crônico de instabilidade da identidade e das relações interpessoais, medo intenso de abandono, comportamento autolesivo recorrente com função regulatória e ausência das alterações vegetativas e cognitivas sustentadas típicas dos episódios afetivos plenos. A comorbidade entre ambos os quadros é descrita, mas deve ser estabelecida com cautela, evitando tanto a subestimação quanto a superestimação diagnóstica recíproca.
8.3 Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)
Particularmente relevante no diagnóstico diferencial com a hipomania e com apresentações de início na infância/adolescência: distratibilidade, impulsividade e inquietação são comuns a ambos os quadros, mas no TDAH tais sintomas são crônicos, presentes desde a infância e sem caráter episódico, ao passo que no TB configuram mudança clara em relação ao funcionamento basal do paciente, associada a alterações concomitantes de humor, sono e autoestima. A comorbidade entre TDAH e TB é descrita com frequência não desprezível, especialmente em populações pediátricas, exigindo avaliação longitudinal cuidadosa.
8.4 Esquizofrenia e transtorno esquizoafetivo
O diagnóstico diferencial com o espectro esquizofrênico é especialmente relevante nas formas psicóticas do TB. Favorecem esquizofrenia: sintomas psicóticos incongruentes com o humor, persistência de sintomas psicóticos francos na ausência de sintomas afetivos plenos, deterioração progressiva do funcionamento basal e predomínio de sintomas negativos. O transtorno esquizoafetivo, por sua vez, exige a presença de sintomas psicóticos por, no mínimo, duas semanas na ausência de sintomas afetivos proeminentes ao longo da doença — critério temporal que o distingue do TB com características psicóticas, no qual a psicose ocorre exclusivamente no contexto dos episódios de humor.
8.5 Transtornos relacionados ao uso de substâncias
Substâncias estimulantes (cocaína, anfetaminas), corticosteroides, agonistas dopaminérgicos e, mais raramente, antidepressivos e outros agentes podem induzir quadros indistinguíveis fenomenologicamente da mania ou hipomania — o que justifica, sempre que pertinente, a triagem toxicológica e a investigação minuciosa de uso de substâncias e medicamentos antes de firmar o diagnóstico primário de TB. O diagnóstico de Transtorno Bipolar Induzido por Substância exige que os sintomas persistam além do período esperado de intoxicação/abstinência aguda.
8.6 Condições médicas gerais e transtornos secundários
Hipertireoidismo, doença de Cushing, esclerose múltipla, lesões estruturais do sistema nervoso central (especialmente frontais e diencefálicas), acidente vascular cerebral, epilepsia do lobo temporal, neurossífilis, HIV e lúpus eritematoso sistêmico com envolvimento neuropsiquiátrico figuram entre as causas orgânicas que podem se manifestar por quadros maniformes secundários, sobretudo quando a estreia sintomática ocorre após os 50 anos, na ausência de história familiar e de temperamento pré-mórbido compatível — cenário que impõe investigação clínica e laboratorial dirigida (função tireoidiana, neuroimagem, sorologias, entre outras conforme suspeita clínica).
8.7 Transtornos de ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático
A elevada comorbidade entre TB e transtornos de ansiedade (transtorno de pânico, ansiedade generalizada, TEPT) pode obscurecer o quadro afetivo primário; sintomas de hiperativação e hipervigilância do TEPT podem, superficialmente, mimetizar irritabilidade e agitação maníaca, mas carecem da qualidade sustentada de elevação do humor, grandiosidade e redução da necessidade de sono típicas da mania/hipomania.
Prognóstico
9.1 Curso longitudinal
O transtorno bipolar segue, na maioria dos casos, um curso crônico e recorrente: estima-se que pacientes não tratados ou inadequadamente tratados apresentem, em média, um episódio de humor a cada um ou dois anos, com tendência ao encurtamento dos intervalos entre episódios ao longo da vida (fenômeno de kindling, ou sensibilização progressiva). Mesmo em períodos de eutimia formal, é comum a persistência de sintomas subsindrômicos residuais (sobretudo depressivos), que respondem por parcela substancial do tempo total de doença ao longo da vida e constituem importante fonte de disfunção psicossocial.
9.2 Modelo de estadiamento clínico
O modelo de estadiamento (staging), proposto por Kapczinski e colaboradores e amplamente incorporado à literatura contemporânea, propõe compreender o TB como uma condição que evolui em estágios de gravidade crescente — desde estados de latência/risco (indivíduos assintomáticos com fatores de risco genéticos ou temperamentais), passando por estágios iniciais com boa resposta terapêutica e recuperação funcional completa entre episódios, até estágios avançados caracterizados por ciclagem rápida, resistência terapêutica, comprometimento cognitivo persistente e comorbidades clínicas cumulativas. Esse modelo tem implicações práticas relevantes: reforça a importância da intervenção precoce e da adesão sustentada ao tratamento como estratégias potencialmente modificadoras do curso da doença, e orienta expectativas prognósticas mais realistas conforme o estágio evolutivo do paciente.
9.3 Comorbidades
A comorbidade é a regra, e não a exceção, no TB. Destacam-se: transtornos de ansiedade (até 50% dos pacientes ao longo da vida), transtornos por uso de substâncias (cerca de 40-60%, com destaque para álcool), transtornos alimentares, TDAH (sobretudo em apresentações de início precoce) e, no plano clínico geral, síndrome metabólica, obesidade, diabetes mellitus tipo 2 e doença cardiovascular — esta última a principal causa de morte prematura na população com TB, com expectativa de vida reduzida em cerca de dez a vinte anos em relação à população geral, resultante da combinação entre efeitos metabólicos de determinados psicofármacos, estilo de vida, menor acesso a cuidados de saúde geral e o próprio impacto biológico sistêmico da doença.
9.4 Suicídio
O risco de suicídio no TB é um dos mais elevados entre todos os transtornos psiquiátricos: estima-se que entre 25% e 50% dos pacientes façam ao menos uma tentativa de suicídio ao longo da vida, e a taxa de suicídio consumado situa-se entre 15 e 20 vezes a da população geral. O risco concentra-se predominantemente em episódios depressivos e mistos (não na mania eufórica pura), sendo particularmente elevado nos primeiros anos após o diagnóstico, em contexto de comorbidade com uso de substâncias, impulsividade elevada, história familiar de suicídio e ausência de suporte social. A avaliação sistemática e contínua do risco suicida deve, portanto, integrar toda consulta de acompanhamento, independentemente da polaridade do episódio em curso.
9.5 Funcionalidade e cognição
Mesmo em remissão sintomática, parcela significativa dos pacientes apresenta prejuízo cognitivo residual — sobretudo em funções executivas, atenção sustentada e memória verbal — e comprometimento funcional em domínios ocupacional, social e familiar, fenômeno mais pronunciado no TB-I e proporcional ao número de episódios prévios e ao tempo de doença não tratada, o que reforça a relevância de intervenções de reabilitação cognitiva e funcional como complemento ao tratamento farmacológico nos estágios mais avançados.
Plano de tratamento
O tratamento do transtorno bipolar organiza-se classicamente em três fases — tratamento agudo da mania/hipomania, tratamento agudo da depressão bipolar e tratamento de manutenção/profilático — e deve ser sempre multimodal, associando farmacoterapia, psicoeducação, intervenções psicossociais e, em casos selecionados, eletroconvulsoterapia (ECT). As recomendações a seguir baseiam-se principalmente nas diretrizes CANMAT/ISBD (2018, com atualização de evidências em 2021 e 2023), amplamente utilizadas como referência internacional, e devem ser sempre adaptadas ao perfil clínico individual, comorbidades e preferências do paciente.
10.1 Princípios gerais
- Todo início ou ajuste de tratamento farmacológico em episódio depressivo deve ser precedido da confirmação diagnóstica de bipolaridade, dado o risco de viragem maníaca/hipomaníaca e de indução de ciclagem rápida associado à monoterapia com antidepressivos.
- A psicoeducação (do paciente e, sempre que possível, da família) é intervenção de primeira linha, com evidência robusta de redução de recorrências e melhora da adesão.
- A regularização do ritmo circadiano e da higiene do sono constitui medida terapêutica não farmacológica de grande relevância, sobretudo na prevenção de viragens maníacas.
- O manejo do risco suicida deve ser sistemático em todas as fases do tratamento.
- O tratamento de comorbidades clínicas (metabólicas, cardiovasculares) e psiquiátricas (uso de substâncias, ansiedade) deve ser integrado ao plano terapêutico, e não tratado de forma isolada.
10.2 Tratamento da mania aguda
Segundo as diretrizes CANMAT/ISBD, tanto a monoterapia quanto a associação de estabilizador do humor com antipsicótico atípico são opções de primeira linha para mania aguda. Como monoterapia de primeira linha figuram lítio, quetiapina, divalproato de sódio (valproato), asenapina, aripiprazol, paliperidona, risperidona e cariprazina; como combinação de primeira linha, recomenda-se associar lítio ou divalproato a quetiapina, aripiprazol, risperidona ou asenapina. Em quadros de agitação psicomotora intensa, pode ser necessária sedação inicial com benzodiazepínicos ou antipsicóticos de ação rápida, e a internação psiquiátrica deve ser considerada sempre que houver risco significativo à integridade do paciente ou de terceiros, sintomas psicóticos proeminentes ou ausência de suporte social adequado para manejo ambulatorial seguro.
10.3 Tratamento da depressão bipolar aguda
O tratamento da depressão bipolar difere substancialmente do manejo da depressão unipolar, dado o risco de viragem maníaca associado a antidepressivos em monoterapia — motivo pelo qual as diretrizes atuais desaconselham seu uso isolado, sobretudo no TB-I. As opções de primeira linha incluem quetiapina, lurasidona (isolada ou associada a lítio/valproato), lítio, lamotrigina e a combinação de olanzapina-fluoxetina (esta com perfil metabólico menos favorável). Antidepressivos podem ser considerados como opção de segunda linha, restritos a quadros de depressão bipolar "pura" (sem características mistas) no TB-II, sempre associados a um estabilizador do humor ou antipsicótico atípico, nunca em monoterapia. Como opções de segunda linha destacam-se ainda o valproato, a associação de ISRS ou bupropiona a estabilizador, a cariprazina e a eletroconvulsoterapia — esta última particularmente indicada em depressão grave com risco de suicídio iminente, sintomas psicóticos, catatonia ou refratariedade a múltiplas tentativas farmacológicas.
10.4 Tratamento de manutenção
O objetivo central da fase de manutenção é a prevenção de recorrências e a preservação da funcionalidade a longo prazo. O lítio permanece o agente com maior corpo de evidência para prevenção de recorrências maníacas e depressivas e, de forma singular entre os estabilizadores do humor, associa-se à redução do risco de suicídio a longo prazo — motivo pelo qual muitas diretrizes o consideram o tratamento de manutenção de referência, sobretudo em pacientes com TB-I clássico, boa resposta prévia e ausência de contraindicações. Outras opções de primeira linha para manutenção incluem quetiapina, divalproato, lamotrigina (com maior eficácia na prevenção de recorrências depressivas do que maníacas), asenapina e aripiprazol, em monoterapia ou combinação, priorizando-se sempre que possível a manutenção do agente que promoveu resposta na fase aguda.
10.5 Intervenções não farmacológicas
- Psicoeducação estruturada (individual ou em grupo): reduz recorrências e hospitalizações, favorece o reconhecimento precoce de sinais de recaída (sintomas prodrômicos) e fortalece a adesão terapêutica.
- Terapia cognitivo-comportamental adaptada ao TB: útil sobretudo na fase de manutenção e no manejo de sintomas depressivos residuais e de crenças disfuncionais associadas à doença.
- Terapia focada na família (Family-Focused Therapy): reduz recorrências ao atuar sobre comunicação familiar e emoção expressa.
- Terapia interpessoal e de ritmo social: enfatiza a regularização de rotinas biológicas e sociais como estratégia estabilizadora do humor.
- Eletroconvulsoterapia: indicada em mania grave refratária ou com risco iminente à vida, depressão bipolar grave com sintomas psicóticos, catatonia, risco de suicídio elevado ou refratariedade farmacológica, e em situações que exijam resposta terapêutica rápida (por exemplo, gestação com quadro grave).
- Reabilitação cognitiva e funcional: indicada em estágios avançados com comprometimento cognitivo residual significativo.
10.6 Populações especiais
Na gestação e no puerpério, a decisão terapêutica deve ponderar cuidadosamente riscos e benefícios: o valproato é formalmente contraindicado pelo elevado risco teratogênico (defeitos do tubo neural, prejuízo no neurodesenvolvimento) e deve ser evitado em mulheres em idade fértil sempre que possível; o lítio, apesar de associado a risco discretamente aumentado de anomalia de Ebstein no primeiro trimestre, pode ser mantido em casos selecionados mediante monitorização especializada, dado que a descontinuação abrupta associa-se a risco elevado de recaída no período de maior vulnerabilidade neurobiológica materna. O puerpério imediato constitui janela de risco especialmente elevado para recorrência de episódios maníacos e psicóticos, exigindo vigilância intensificada. Em idosos, recomenda-se cautela especial quanto a doses de lítio (maior risco de neurotoxicidade e comprometimento da função renal), preferindo-se, quando possível, iniciar com doses reduzidas e ajuste gradual, com atenção a interações medicamentosas e comorbidades clínicas.
10.7 Monitorização e segurança
O uso do lítio exige monitorização periódica da litemia (objetivo terapêutico geralmente entre 0,6 e 1,0 mEq/L para manutenção, podendo alcançar até 1,2 mEq/L em fase aguda), função renal (creatinina, taxa de filtração glomerular estimada) e função tireoidiana, dado o risco de hipotireoidismo e, mais raramente, nefropatia crônica associada ao uso prolongado. O valproato requer monitorização de enzimas hepáticas, hemograma (risco de trombocitopenia) e, em mulheres em idade fértil, discussão sistemática sobre contracepção eficaz e riscos reprodutivos. Antipsicóticos atípicos exigem monitorização metabólica regular (peso, circunferência abdominal, glicemia, perfil lipídico) dado o risco cardiometabólico cumulativo, particularmente relevante nesta população já predisposta a tais comorbidades.
Anexo — Atualização de literatura (últimos 12 meses)
Complementando o corpo teórico deste capítulo, apresenta-se a seguir uma síntese da produção científica sobre transtorno bipolar publicada entre agosto de 2025 e agosto de 2026 (data de corte: 06/08/2026), levantada em bases PubMed e fontes regulatórias (FDA), organizada segundo as seis áreas fixas do formato de revisão periódica do Kaleidoskópio Klubbook.
Novidades farmacológicas
O destaque do período é a aprovação, em fevereiro de 2026, da milsaperidona (Bysanti) pela FDA — nova entidade química da classe dos antipsicóticos atípicos, metabólito ativo da iloperidona — para o tratamento de episódios maníacos ou mistos agudos associados ao transtorno bipolar tipo I e para esquizofrenia em adultos. (ref. 1,2)
Farmacogenética
A busca por biomarcadores preditivos de resposta ao lítio permanece um dos eixos mais ativos de pesquisa translacional no período. Escores poligênicos específicos por via biológica mostraram-se capazes de estratificar, de forma preliminar, subgrupos com maior probabilidade de resposta. (ref. 3) Revisão de 2025 sintetiza achados de GWAS, escores de risco poligênico e expressão gênica, reforçando que nenhum marcador isolado tem, até o momento, valor preditivo suficiente para uso clínico rotineiro. (ref. 4) Estudo publicado no European Psychiatry associou padrões de metilação do DNA à resposta prospectiva ao lítio, sugerindo que marcadores de envelhecimento biológico podem complementar painéis genéticos futuros. (ref. 5)
Aplicações atuais
Metanálise de 24 ensaios controlados randomizados confirmou a eficácia da lamotrigina na depressão bipolar e unipolar, consolidando seu papel como opção de primeira linha na prevenção de recorrências depressivas. (ref. 6) Metanálise de dados de pacientes individuais mostrou que intervenções psicológicas estruturadas reduzem sintomas depressivos no TB-I e TB-II, com maior benefício relativo em quadros de gravidade basal mais alta. (ref. 7) Revisão sistemática sobre estimulação magnética transcraniana repetitiva (rTMS) na depressão bipolar encontrou eficácia antidepressiva superior ao sham, consistente com o status de "breakthrough" recentemente concedido pela FDA a essa modalidade. (ref. 8) Revisão sistemática sobre episódios depressivos com características mistas identificou lurasidona, olanzapina, cariprazina, lumateperona, quetiapina e ziprasidona como agentes com redução estatisticamente significativa dos sintomas. (ref. 9)
Novas apresentações
O desenvolvimento de uma formulação injetável de longa ação da milsaperidona já está sendo explorado pelo fabricante, com base nas propriedades físico-químicas da molécula. (ref. 2) Painéis de diretrizes assinalam ainda a disponibilidade do filme bucal/sublingual de dexmedetomidina (Igalmi) para agitação aguda associada a transtorno bipolar ou esquizofrenia, via alternativa às formulações injetáveis e orais tradicionais. (ref. 10)
Novas descobertas
A literatura mecanística do período consolida um modelo neuroimune do transtorno bipolar. Revisão de fevereiro de 2026 integra achados moleculares e de neuroimagem, propondo que a interação entre processos inflamatórios, disfunção mitocondrial e alterações de circuitos cerebrais fundamenta a neuroprogressão, o declínio cognitivo e a resistência terapêutica observados na doença. (ref. 11) Revisão de dezembro de 2025 detalha como a inflamação crônica de baixo grau modula sistemas serotoninérgico, dopaminérgico e glutamatérgico, reforçando alvos terapêuticos anti-inflamatórios ainda experimentais. (ref. 12) Revisão narrativa explorou a sobreposição fisiopatológica entre transtorno bipolar e doença inflamatória intestinal por meio do eixo intestino-cérebro e de pleiotropia genética compartilhada, tema emergente de pesquisa translacional. (ref. 13)
Novas indicações
A risperidona injetável de liberação prolongada (Uzedy) recebeu, em 2025, expansão de indicação para tratamento de manutenção do transtorno bipolar tipo I. (ref. 10) A lumateperona (Caplyta), já indicada para depressão bipolar e esquizofrenia, teve indicação adjunta expandida pela FDA em novembro de 2025 para transtorno depressivo maior, sem sinal médio de efeitos colaterais metabólicos, sexuais ou de peso versus placebo nos ensaios apresentados. (ref. 14)
Nota: esta atualização tem caráter de síntese de literatura e não substitui o julgamento clínico individual. Achados preliminares, de amostra pequena ou ainda não replicados foram sinalizados como tal ao longo do texto.
Referências
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