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Psicofarmacologia

Canabidiol

Cannabis medicinal do sistema endocanabinoide à prática clínica: botânica e farmacognosia, arquitetura do sistema endocanabinoide, farmacodinâmica comparada de THC e CBD, farmacocinética e farmacogenética, aplicações em neuropsiquiatria e dor, efeitos adversos e dependência, regulamentação brasileira, e um capítulo de atualização com o que mudou na evidência e na regulação entre janeiro e julho de 2026.

Registro: KLB-PSI-CAN-E01Edição 12026-07-21PUBLICADO
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Introdução

A Cannabis sativa L. acompanha a espécie humana há milênios, com registro de uso medicinal em farmacopeias antigas. Nas últimas duas décadas, porém, o campo passou por uma transformação radical: da criminalização quase universal para um corpo crescente — ainda que desigual — de evidência clínica, regulamentação sanitária específica e produtos farmacêuticos aprovados. Para o psiquiatra e o clínico geral, essa mudança trouxe tanto oportunidade terapêutica quanto um risco real de prescrição descolada da evidência disponível.

Este material reúne, em um só documento, a base farmacológica clássica do tema — botânica, sistema endocanabinoide, farmacodinâmica e farmacocinética comparadas de THC e CBD, aplicações clínicas documentadas e o panorama regulatório brasileiro — e a fecha com um capítulo de atualização que resume o que mudou entre janeiro e julho de 2026: a maior revisão sistemática já conduzida sobre canabinoides em saúde mental, novas revisões Cochrane sobre dor crônica, o novo marco regulatório da Anvisa e os principais achados mecanísticos e farmacogenéticos do período.

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Como usar este material

Os capítulos 1 a 7 formam a base farmacológica estável do tema. O capítulo 8 é a camada de atualização — pode ser lido isoladamente por quem já domina a base e quer apenas as novidades do período.

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Botânica, química e farmacognosia da Cannabis

Taxonomia e variedades

O estudo da Cannabis na medicina moderna exige compreensão de sua complexidade botânica e química. Embora existam discussões contínuas na taxonomia vegetal, o Manual do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) reconhece formalmente uma única espécie — a Cannabis sativa L. — sendo as demais variações classificadas como subespécies ou cultivares:

  • Cannabis sativa: originária de latitudes do norte e leste da Ásia; porte alto, folhas estreitas, produção voltada a fibras de alta qualidade e sementes abundantes.
  • Cannabis indica: cultivada historicamente no sul da Ásia; estrutura mais curta e espessa, folhas largas, concentração de tricomas mais alta.
  • Cannabis ruderalis: variedade selvagem do norte dos Estados Unidos, baixos teores de THC.

Complexidade bioquímica

A planta funciona como uma verdadeira biofábrica molecular: a literatura descreve mais de 750 constituintes químicos identificados, distribuídos em classes como monoterpenos, sesquiterpenos, flavonoides, esteroides e compostos nitrogenados. Duas classes bioativas se destacam:

  • Terpenos e flavonoides — responsáveis pelo aroma e sabor típicos de cada cultivar.
  • Canabinoides — compostos terpenofenólicos (C21/C22) encontrados exclusivamente na Cannabis sativa. Mais de 100 moléculas já foram identificadas nessa categoria, incluindo canabigerol (CBG), canabicromeno (CBC), canabidiol (CBD), Δ9-tetrahidrocanabinol (Δ9-THC), Δ8-THC, canabiciclol (CBL), canabielsoin (CBE), canabinol (CBN) e canabitriol (CBT).
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Os tricomas

Os tricomas glandulares — estruturas que lembram, ao microscópio, cogumelos enoki — são responsáveis por sintetizar, armazenar e secretar a maior parte dos metabólitos secundários que produzem os efeitos terapêuticos e intoxicantes da planta.

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O sistema endocanabinoide: arquitetura e sinalização

Descoberto no início dos anos 1990 durante estudos sobre o THC, o sistema endocanabinoide (SEC) é um sistema fisiológico essencial à manutenção da homeostase em múltiplos níveis celulares e teciduais, distribuído pelo sistema nervoso central e periférico, tecidos conjuntivos, órgãos, glândulas e células do sistema imune. Diferentemente dos sistemas gabaérgico (inibitório) ou glutamatérgico (excitatório), o SEC atua primordialmente como sistema neuromodulador.

Três pilares do SEC

  • Endocanabinoides — mensageiros lipídicos endógenos, principalmente a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG).
  • Receptores canabinoides — proteínas transmembranas acopladas à proteína G, primariamente CB1 e CB2.
  • Maquinário enzimático — enzimas de síntese (NAPE-PLD, DAGLα) e de degradação: a FAAH (fatty acid amide hydrolase), que cliva a anandamida, e a MAGL (monoacilglicerol lipase), que degrada o 2-AG.

Sinalização retrógrada: um sistema atípico

Os neurotransmissores clássicos são sintetizados previamente, armazenados em vesículas e liberados após o influxo de cálcio no terminal pré-sináptico. O SEC rompe esse paradigma: os endocanabinoides são sintetizados sob demanda a partir de precursores lipídicos da membrana pós-sináptica, em resposta ao aumento de cálcio intracelular, e não são estocados em vesículas. Ao serem gerados, difundem-se pela fenda sináptica em direção ao neurônio pré-sináptico — o sentido inverso da neurotransmissão clássica — e ligam-se ao receptor CB1.

Essa ativação desencadeia o fechamento dos canais de cálcio no terminal pré-sináptico; como o influxo de cálcio é o gatilho da exocitose vesicular, o SEC modula a liberação de outros neurotransmissores na fenda — GABA, glutamato, acetilcolina, dopamina, histamina e serotonina.

Distribuição e função dos receptores

ParâmetroReceptor CB1Receptor CB2
Localização predominanteSistema nervoso centralSistema imune e tecidos periféricos
Expressão sinápticaPredominantemente pré-sinápticaMajoritariamente pós-sináptica / células imunes
Zonas de alta densidadeGânglios da base, cerebelo, hipocampo, giro denteado, córtex (camadas I e IV)Micróglia, células de defesa, tecidos conjuntivos
Funções reguladasSono, apetite, coordenação motora, memória de curto prazo, percepção espaço-tempoProcessos inflamatórios, dor periférica, neuroproteção
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Um dado farmacológico relevante

O receptor CB1 está ausente do tronco cerebral, bulbo e hipotálamo — região que controla funções autonômicas vitais como ritmo respiratório e cardíaco. Essa ausência confere um perfil de segurança terapêutica ímpar: o risco de parada cardiorrespiratória por superdosagem de canabinoides é virtualmente nulo, diferenciando essa classe farmacológica dos opioides.

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Farmacodinâmica comparada: THC versus CBD

Os fitocanabinoides exógenos interagem com o SEC mimetizando ou alterando a dinâmica dos sinalizadores endógenos — mas o THC e o CBD possuem mecânicas moleculares praticamente antagônicas.

Δ9-THC: agonismo e psicoatividade

O THC é o principal componente responsável pelos efeitos psicoativos e intoxicantes da planta. Age como agonista direto (ou agonista parcial, conforme a literatura) dos receptores CB1 e CB2; ao ligar-se ao CB1 pré-sináptico no SNC, altera a liberação de dopamina no sistema mesolímbico de recompensa, gerando as alterações características do estado mental e cognitivo. O THC também interage com alvos não canabinoides — é descrito como agonista de GPR18, PPARγ, TRPA1, TRPV2/3/4, agonista/antagonista de GPR55 e antagonista do canal TRPM8 e do receptor serotoninérgico 5-HT1A.

CBD: modulação alostérica e segurança

Isolado em 1940 e com estrutura elucidada em 1963, o CBD é um composto não psicoativo, sem evidência pré-clínica ou clínica de potencial de abuso ou dependência. Ao contrário do THC, o CBD tem baixa afinidade direta por CB1 e CB2, atuando de forma indireta — como antagonista ou modulador alostérico negativo dos efeitos do THC no CB1. É esse mecanismo que explica por que o CBD, quando administrado junto ao THC, mitiga os efeitos ansiogênicos e psicóticos deste último.

Um dos mecanismos mais estudados do CBD é a inibição da enzima FAAH, aumentando a disponibilidade de anandamida. O CBD também atua em receptores serotoninérgicos 5-HT1A, no receptor TRPV1 e em vias GABA/glutamato — o que sustenta suas propriedades ansiolíticas, anticonvulsivantes, anti-inflamatórias, neuroprotetoras, antipsicóticas e analgésicas.

Em resumo

THC = agonista CB1/CB2, psicoativo, risco de ansiedade/psicose em dose alta. CBD = modulador indireto, não psicoativo, mitiga os efeitos adversos do THC quando coadministrado.

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Farmacocinética, metabolismo e farmacogenética

Apresentações e vias de administração

No mercado farmacêutico e de suplementos, o canabidiol é encontrado principalmente como óleo sublingual, cápsulas, sprays orais e produtos tópicos. Os principais métodos de extração incluem a extração por CO₂ supercrítico — reconhecida por maior pureza e controle dos compostos extraídos — e, com menor preferência por risco de resíduos químicos, extração com hidrocarbonetos (butano, propano) ou solventes orgânicos.

Metabolismo hepático

O THC é predominantemente metabolizado pela via do citocromo P450, com a hidroxilação a 11-OH-THC (metabólito ativo) atribuída majoritariamente à CYP2C9, com contribuições de CYP2C19 e CYP3A4; o 11-OH-THC é então oxidado a 11-nor-9-carboxi-THC (inativo). O CBD é metabolizado pelas mesmas três isoenzimas. A biodisponibilidade oral do THC é baixa (cerca de 6%) por efeito de primeira passagem hepática — um dos principais motivadores do desenvolvimento de formulações que buscam contornar essa limitação.

Farmacogenética

Variantes de perda de função em CYP2C9 (como *2 e *3) reduzem a depuração intrínseca da enzima em 30–70%, e estudos preliminares sugerem que polimorfismos em AKT1 e COMT podem modular, respectivamente, o risco de psicose e de comprometimento neurocognitivo induzidos por cannabis. Ainda assim, estudos clínicos que buscam correlacionar genótipo com concentração plasmática de THC/CBD têm resultados inconsistentes, e a via de administração (oral versus inalatória) parece influenciar o quanto essas variantes genéticas se traduzem em diferença clinicamente detectável — tema retomado com dado inédito no capítulo de atualização.

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Por que isso importa na prática

Valproato, um potente inibidor de CYP2C9, pode teoricamente potencializar os efeitos psicotrópicos do Δ9-THC ao reduzir sua depuração plasmática — uma interação a considerar em pacientes já em uso de anticonvulsivantes.

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Aplicações terapêuticas em neuropsiquiatria e dor

Epilepsia refratária

Esta é a indicação com base de evidência mais robusta: ensaios clínicos randomizados demonstram redução significativa da frequência de crises frente a placebo. O CBD purificado (Epidiolex®) é aprovado pelo FDA para as encefalopatias epilépticas graves e farmacorresistentes — Síndrome de Lennox-Gastaut, Síndrome de Dravet e, mais recentemente, esclerose tuberosa.

Transtornos de ansiedade e fobia social

Ensaios estruturados demonstraram que dose única de 600 mg de CBD reduziu significativamente ansiedade subjetiva, desconforto emocional e comprometimento cognitivo associado à fala em contexto de ansiedade patológica geral. No transtorno de ansiedade social especificamente, 400 mg de CBD atenuaram a ansiedade, com neuroimagem funcional mostrando redução de atividade no giro parahipocampal esquerdo, hipocampo e giro temporal inferior, e aumento no giro cingulado posterior direito. O THC, em contraste, tem efeito dose-dependente bifásico: pode aliviar tensão em dose baixa, mas precipitar ataques de pânico em dose alta.

Psicose e esquizofrenia

Por seu antagonismo indireto no receptor CB1 — na direção oposta ao THC — o CBD isolado demonstrou propriedades antipsicóticas em estudos clínicos e pré-clínicos, despontando como alternativa molecular para modulação de vias dopaminérgicas hiperativas sem o perfil metabólico adverso dos antipsicóticos clássicos.

Dor crônica e manejo de opioides

Diante da crise de saúde pública associada aos opioides, os canabinoides têm sido investigados como adjuvantes de baixo potencial de abuso. Os receptores CB2, ativados no manejo da dor e inflamação, reduzem a sensibilização central e periférica.

Estudo de impacto

Um estudo prospectivo com 131 pacientes em uso crônico de opioides observou 94% relatando melhora significativa na qualidade de vida após introdução de extrato de CBD, com otimização do sono; em 8 semanas, mais da metade conseguiu reduzir ou interromper voluntariamente o uso de opioides.

Nota editorial: revisões sistemáticas mais recentes (ver capítulo de atualização 2026) qualificam esse otimismo — o padrão agregado de evidência para dor crônica é mais modesto do que séries de caso isoladas sugerem.

Outras indicações em expansão

  • Esclerose múltipla — alívio antiespasmódico, controle de dor associada, possível efeito sobre danos cognitivos.
  • Doenças neurodegenerativas (Parkinson, Alzheimer) — foco nos efeitos neuroprotetores mediados por CB2 e atenuação de sintomas comportamentais.
  • TEPT — facilitação da extinção de memórias aversivas via regulação hipocampal.
  • TAB — investigação preliminar de efeitos sedativos/estabilizadores em casos refratários, com cautela pelo potencial do THC de induzir labilidade de humor.
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Efeitos adversos, dependência e segurança

Do ponto de vista fisiológico agudo, o uso de THC acarreta hiperemia conjuntival, taquicardia sinusal, boca seca, letargia e déficits transitórios de memória de curto prazo e coordenação motora fina.

Risco no uso crônico e na adolescência

O uso crônico de cannabis de alta potência (alto THC, baixo CBD) tem sido associado a riscos psiquiátricos severos, sobretudo quando iniciado na adolescência — fase em que os receptores canabinoides atingem densidade máxima e o cérebro passa por poda neural. Um estudo de coorte amplamente citado demonstrou que portadores do polimorfismo funcional valina do gene COMT que consomem cannabis na adolescência têm risco dramaticamente superior de desenvolver transtornos do espectro da esquizofrenia na vida adulta.

Síndrome de dependência

O uso frequente e prolongado de THC promove down-regulation (dessensibilização e internalização) dos receptores CB1, gerando tolerância farmacológica. A interrupção abrupta pode deflagrar a Síndrome de Abstinência da Cannabis — cientificamente validada e caracterizada por irritabilidade, inquietação, fissura (craving), insônia, redução do apetite e sintomas depressivos leves. Estima-se que 15% a 33% dos usuários crônicos, sobretudo os que iniciam precocemente, desenvolvam transtorno por uso de substância.

As abordagens terapêuticas modernas para a dependência incluem Terapia Cognitivo-Comportamental, Manejo de Contingências e Terapia Motivacional; entre os agentes farmacológicos, a gabapentina tem mostrado benefício off-label na atenuação dos sintomas de abstinência e das disfunções executivas associadas.

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Regulamentação e prescrição no Brasil

A evolução legal da cannabis medicinal no Brasil migrou de um cenário de proibição total e criminalização da classe médica — estabelecido no período da ditadura militar pelos Decretos-Lei nº 385/1968 e Lei nº 5.726/1971 — para um arcabouço normativo técnico conduzido pela Anvisa. Desde 2017, a Cannabis sativa consta no rol de plantas medicinais sob a Denominação Comum Brasileira (DCB nº 11543).

Marco regulatório histórico (até 2025)

  • RDC nº 327/2019 — regulamentou as concessões de Autorização Sanitária para fabricação e importação industrial, com critérios de comercialização, monitoramento e dispensação.
  • RDC nº 660/2022 — consolidou os critérios para importação excepcional por pessoa física, mediante cadastro e prescrição de profissional habilitado.

Critérios técnicos de prescrição

Não é permitida a prescrição da planta in natura nem do THC isolado sintético fora de contexto autorizado. A prescrição segue a concentração de THC:

  • Notificação de Receita "A" (Amarela) — obrigatória para THC > 0,2%.
  • Notificação de Receita "B" (Azul) — para THC ≤ 0,2% (predominância de CBD).

Descompasso institucional: Anvisa versus CFM

Enquanto a Anvisa historicamente concedeu autorizações de importação com base em evidência clínica internacional, o Conselho Federal de Medicina manteve-se, por anos, sob a Resolução CFM nº 2.113/2014 — que restringia a prescrição de CBD a crianças e adolescentes com epilepsia refratária, sem revisão oficial desde sua publicação. Esse descompasso gerou insegurança jurídica e debates sobre a autonomia médica frente às normas do conselho de classe. O capítulo de atualização detalha a reformulação completa desse marco em 2026.

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Atualização 2026 — o que mudou na evidência e na regulação

Este capítulo resume a revisão de literatura conduzida sobre cannabis medicinal no primeiro semestre de 2026, cobrindo PubMed, Cochrane, ClinicalTrials.gov e as agências regulatórias FDA, EMA e Anvisa. O achado central do período reposiciona expectativas construídas ao longo da última década: a maior revisão sistemática já conduzida sobre canabinoides em saúde mental não confirma eficácia justamente nas indicações que mais crescem na prática clínica.

Aplicações atuais: o que a evidência agregada mostra

Publicada em março de 2026 na Lancet Psychiatry, a revisão sistemática e metanálise conduzida por Jack Wilson e colaboradores, da Universidade de Sydney, reuniu 54 ensaios clínicos randomizados (n = 2.477 participantes) publicados ao longo de 45 anos (1980–2025) — a análise mais abrangente já realizada sobre canabinoides em transtornos mentais e por uso de substâncias. O resultado: nenhuma evidência de eficácia para ansiedade, depressão ou TEPT, as três condições que hoje concentram a maior parte das prescrições de cannabis medicinal em países como Austrália, Canadá e Estados Unidos.

A mesma revisão encontrou evidência — de qualidade baixa — sugerindo possível benefício em transtorno por uso de cannabis, insônia, tiques/síndrome de Tourette e autismo. Um achado clinicamente relevante e contraintuitivo: em transtorno por uso de cocaína, a cannabis medicinal aumentou o craving em comparação a placebo, contrariando a hipótese de que serviria como terapia-ponte entre substâncias.

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Implicação clínica

Os autores da revisão argumentam que o uso rotineiro de cannabis medicinal para ansiedade, depressão e TEPT pode, na ausência de evidência de eficácia, postergar o acesso a tratamentos com base de evidência mais sólida — sem que a revisão tenha investigado diretamente esse desfecho.

Em dor crônica, duas revisões independentes publicadas em janeiro de 2026 (Cochrane, sobre dor neuropática; e a atualização da Annals of Internal Medicine, sobre dor crônica em geral) também moderaram o otimismo: a Cochrane, analisando 21 estudos com 2.187 participantes, não encontrou evidência clara de alívio de pelo menos 50% da dor com THC isolado, combinações THC/CBD ou CBD isolado frente a placebo. A revisão da Annals apontou redução discreta da dor com THC oral e formulações oromucosais THC/CBD — com a nabilona superando o dronabinol —, à custa de mais tontura, sedação e náusea.

Novas apresentações: o novo marco regulatório da Anvisa

No Brasil, o evento regulatório mais relevante do semestre foi a publicação, em fevereiro de 2026, de um conjunto de quatro novas Resoluções da Diretoria Colegiada que reorganiza toda a cadeia de cannabis medicinal — cultivo, pesquisa, fabricação, importação e dispensação —, com entrada em vigor em 4 de maio de 2026.

A RDC nº 1.015/2026 substitui a antiga RDC 327/2019 e traz mudanças substanciais: amplia as vias farmacotécnicas autorizadas (inalatória, oral, bucal, sublingual e dermatológica), mantendo vedadas formas de liberação modificada, nanotecnológica ou peguilhada; condiciona a renovação da Autorização Sanitária — válida por 5 anos — à apresentação de um Plano de Desenvolvimento Clínico com evidência de avanço rumo ao registro definitivo como medicamento; e amplia o acesso a produtos com THC acima de 0,2% para pacientes com doenças debilitantes graves, incluindo agora fibromialgia e lúpus, além dos cuidados paliativos previamente contemplados. As demais resoluções do pacote (RDC 1.012 e 1.013/2026) regulamentam, respectivamente, o cultivo para pesquisa e o cultivo de plantas de baixo teor de THC, abrindo caminho para produção nacional.

Farmacogenética: um novo dado sobre via de administração

Um estudo publicado em janeiro de 2026 no International Journal of Legal Medicine investigou, de forma retrospectiva, se os genótipos CYP2C9 e CYP2C19 influenciam as concentrações sanguíneas de THC, CBD e seus metabólitos após vaporização controlada de cannabis rica em CBD. Diferentemente de estudos anteriores com administração oral, não foi encontrada associação clara entre genótipo e concentração plasmática — achado que os autores atribuem à via inalatória, que reduz o efeito de primeira passagem hepática relevante para a farmacogenética observada por via oral. O resultado reforça que a via de administração é uma variável a considerar antes de extrapolar achados farmacogenéticos entre formulações.

Novidades farmacológicas: formulações de próxima geração

Nenhuma nova molécula canabinoide foi aprovada pelo FDA ou pela EMA no período. O desenvolvimento farmacêutico segue concentrado em contornar a baixa biodisponibilidade oral do CBD: um ensaio farmacocinético de fase 1, com atualização registrada em fevereiro de 2026, testou uma nova formulação oral (600 mg e 900 mg) desenhada para melhorar a absorção intestinal, comparando-a diretamente ao Epidyolex® em voluntários sadios.

Novas descobertas: o receptor CB2 como alvo neuroinflamatório

A pesquisa mecanística do período seguiu concentrada no receptor CB2 como alvo terapêutico para neuroinflamação — com a vantagem, sobre estratégias voltadas a CB1, de evitar o perfil psicoativo. Uma revisão publicada em 2026 na Frontiers in Behavioral Neuroscience consolidou evidências pré-clínicas de efeito neuroprotetor da ativação de CB2 em modelos de neuroinflamação, com destaque para sua regulação positiva em contextos associados à doença de Alzheimer — reforçando ligantes CB2-seletivos como estratégia de pesquisa translacional para doenças neurodegenerativas.

Novas indicações: autismo sem deficiência intelectual

Para além das epilepsias refratárias já consolidadas na bula do CBD, um ensaio aberto de fase 2, publicado em maio de 2026 no Journal of Child and Adolescent Psychopharmacology, testou CBD para sintomas nucleares e associados do transtorno do espectro autista em crianças e adolescentes sem deficiência intelectual — população pouco representada nos ensaios anteriores de CBD em autismo, historicamente voltados a pacientes com comprometimento cognitivo associado. O desenho aberto limita conclusões causais, mas amplia o perfil de paciente estudado.

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Síntese do semestre

O padrão geral de 2026 é de consolidação regulatória (Brasil reorganizando toda a cadeia normativa) em paralelo a uma correção de expectativas clínicas (a maior revisão já feita não confirma eficácia nas indicações psiquiátricas mais prescritas). Para a prática, isso reforça a indicação em epilepsia refratária e sugere cautela redobrada ao prescrever para ansiedade, depressão, TEPT ou dor crônica fora de contexto de pesquisa ou de falha terapêutica documentada.

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Considerações finais

A cannabis medicinal ocupa hoje um espaço farmacológico peculiar: um sistema de sinalização endógeno amplamente distribuído e mecanisticamente bem descrito, um perfil de segurança aguda favorável — sobretudo pela ausência de CB1 no tronco cerebral —, e uma base de evidência clínica que segue sólida para poucas indicações (epilepsia refratária, espasticidade na esclerose múltipla) e mais frágil do que a expansão comercial sugere para a maioria das demais. A atualização de 2026 não invalida o interesse científico no tema; ao contrário, reforça a necessidade de ensaios clínicos robustos e de prescrição ancorada em evidência — especialmente em saúde mental, onde a lacuna entre uso clínico crescente e comprovação de eficácia é hoje o dado mais importante da literatura.

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