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Psicossomática

Módulo 1 — Fundamentos Históricos e Conceituais

Texto de apoio ao Módulo 1 do Curso Básico de Psicossomática: fundamentos históricos e conceituais do campo, da medicina hipocrática e do dualismo cartesiano até Freud, a Escola de Chicago (Alexander), a Escola Psicossomática de Paris (Marty), Winnicott, McDougall e o modelo biopsicossocial de Engel, encerrando com a diferenciação conceitual contemporânea (doença psicossomática, transtorno de sintomas somáticos, transtorno funcional e alexitimia), uma vinheta clínica ilustrativa, atividades de fixação e glossário.

Registro: KLB-SOM-FUN-E01Edição 1 — 2026-09-12PUBLICADO
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Apresentação do módulo

Este capítulo constitui o texto de apoio ao Módulo 1 do Curso Básico de Psicossomática, dedicado aos fundamentos históricos e conceituais do campo. Antes de qualquer aprofundamento clínico ou neurobiológico — que serão objeto dos módulos seguintes —, é indispensável que o aluno compreenda de onde vêm as ideias que hoje organizam a psicossomática, quais perguntas essas ideias tentaram responder, e por que ainda hoje convivemos com diferentes escolas, vocabulários e formas de conceber a relação entre o psiquismo e o corpo. Sem esse alicerce histórico-conceitual, corre-se o risco de tratar a psicossomática como um conjunto solto de curiosidades clínicas, quando na verdade se trata de um campo com tradições teóricas robustas, tensões internas produtivas e uma trajetória de mais de um século de desenvolvimento.

O percurso proposto aqui não é meramente cronológico. Cada momento histórico apresentado — da medicina hipocrática ao modelo biopsicossocial de Engel — corresponde a uma forma diferente de responder a uma mesma pergunta fundamental: como pensar a unidade de um ser que sofre, adoece e se expressa simultaneamente pelo corpo e pela mente, sem reduzir uma dimensão à outra?

Objetivo geral

Compreender a trajetória histórica da psicossomática e apropriar-se do vocabulário conceitual fundamental do campo, de modo a construir uma base sólida para o estudo dos mecanismos neurobiológicos, dos modelos teóricos e dos quadros clínicos que serão trabalhados nos módulos seguintes do curso.

Objetivos específicos

  • Reconhecer as raízes históricas da psicossomática, desde a medicina hipocrática até o dualismo cartesiano.
  • Identificar as contribuições de Freud para a compreensão do corpo como via de expressão psíquica.
  • Diferenciar as principais escolas teóricas do campo — Chicago e Paris — e seus respectivos conceitos centrais.
  • Compreender o modelo biopsicossocial de George Engel e sua importância epistemológica para a medicina contemporânea.
  • Distinguir, com precisão, os principais termos utilizados hoje no campo: doença psicossomática, transtorno de sintomas somáticos, transtorno funcional e alexitimia.
  • Situar a psicossomática dentro de um mapa conceitual integrado, preparando o terreno para os módulos de bases neurobiológicas e modelos teóricos.

Competências desenvolvidas

Ao final deste módulo, espera-se que o aluno seja capaz de argumentar, com base histórica e conceitual, por que a dicotomia mente-corpo é uma simplificação insustentável do ponto de vista clínico e científico, e de utilizar com propriedade a terminologia técnica do campo em contextos de discussão de caso, produção acadêmica e comunicação com equipes multiprofissionais.

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Introdução: o que é psicossomática e por que ela importa

A palavra "psicossomática" é, em si, um pequeno manifesto. Ao unir o prefixo psico (da alma, psyché) ao termo soma (corpo), ela já anuncia uma recusa: a recusa de tratar mente e corpo como dois territórios estanques, cada um sob a jurisdição de uma especialidade distinta. Essa recusa não é trivial. Ela se choca com séculos de tradição médica ocidental, organizada — como veremos adiante — em torno de uma separação rigorosa entre o que é "orgânico" e o que é "mental", entre o que se trata com bisturi e fármaco e o que se trata com escuta e palavra.

Psicossomática, no sentido em que este curso a define, não é sinônimo de "doença imaginária", tampouco de "doença nervosa que se manifesta no corpo" em oposição a uma suposta doença "realmente orgânica". Essa confusão, infelizmente comum no senso comum e até em ambientes de saúde, produz estigma e sofrimento adicional para os pacientes, que muitas vezes se sentem acusados de "inventar" ou "exagerar" seus sintomas. Ao contrário, a psicossomática parte do pressuposto de que todo processo de adoecimento — absolutamente todo — envolve, em proporções variáveis, dimensões biológicas, psíquicas, relacionais e sociais. O que a diferencia como campo de saber é justamente a decisão metodológica de investigar sistematicamente essa interseção, em vez de simplesmente presumi-la ou ignorá-la.

Compreender a psicossomática exige, portanto, abandonar duas posições igualmente equivocadas. A primeira é o organicismo estrito, que reduz o adoecer a processos bioquímicos e estruturais, tratando a subjetividade do paciente como ruído irrelevante para o raciocínio clínico. A segunda é o psicologismo ingênuo, que atribui toda doença física a um conflito psíquico não resolvido, incorrendo no erro oposto de negar a autonomia relativa dos processos biológicos. Entre esses dois extremos, a psicossomática busca construir modelos de compreensão que deem conta da complexidade real do adoecer humano — um projeto ambicioso, que só pode ser compreendido em profundidade quando situado historicamente.

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Antes da medicina moderna: mito, corpo e alma

2.1 A tradição hipocrática e os quatro humores

Embora o termo "psicossomática" seja uma cunhagem do século XIX, a intuição de que estados afetivos influenciam o corpo é tão antiga quanto a própria medicina ocidental. A escola hipocrática, já no século V a.C., rompeu com explicações mágico-religiosas do adoecimento — que atribuíam a doença à ação de deuses ou de forças sobrenaturais — e propôs um modelo naturalista, baseado no equilíbrio de quatro humores corporais: sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde seria o estado de equilíbrio (eucrasia) entre esses humores, e a doença, o desequilíbrio (discrasia).

O que interessa particularmente à história da psicossomática é que esse modelo humoral já continha, em germe, uma articulação entre corpo e temperamento: o excesso de bile negra (melan + chole) produziria a melancolia, um estado que hoje reconheceríamos como próximo do que chamamos de depressão, mas que para os antigos era, ao mesmo tempo, uma condição do corpo e da alma — sem que essas duas instâncias fossem pensadas como radicalmente separadas. A tradição hipocrática, e mais tarde a sistematização galênica dos temperamentos (sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico), operava justamente na ausência de um dualismo estrito: o corpo produzia disposições psíquicas, e estas, por sua vez, eram compreendidas como parte da mesma fisiologia.

Essa unidade pré-dualista não deve ser romantizada como uma "psicossomática avant la lettre" — os antigos não dispunham de nenhuma das ferramentas conceituais, metodológicas ou clínicas que caracterizam o campo hoje. Mas é importante que o aluno perceba que a fragmentação entre mente e corpo não é um dado natural e universal da experiência humana: ela é uma construção histórica específica, que se consolidou em um momento determinado da cultura ocidental, como veremos a seguir.

2.2 Da Idade Média ao Renascimento: entre teologia e anatomia

Durante a Idade Média europeia, a compreensão do corpo e da doença passou a ser fortemente mediada pela teologia cristã. A doença podia ser lida como punição divina, como prova de fé ou como oportunidade de purificação espiritual — um vocabulário radicalmente distinto do naturalismo hipocrático, mas que, paradoxalmente, preservava uma forma de unidade entre o físico e o espiritual, ainda que subordinada a uma cosmovisão religiosa. O corpo doente era, também nesse período, um corpo que falava — só que sua linguagem era lida por meio de categorias morais e religiosas, e não médicas no sentido moderno.

O Renascimento trouxe consigo a retomada do estudo anatômico sistemático — os trabalhos de Andreas Vesalius no século XVI são um marco nesse sentido — e, com ele, um deslocamento progressivo do olhar médico para a estrutura material do corpo. Esse movimento, que se intensificará nos séculos seguintes, é condição necessária para o surgimento da medicina científica moderna, mas também é o início de um processo de progressiva cisão entre o estudo do corpo (que se torna cada vez mais autônomo, empírico e dissociado de considerações subjetivas) e o estudo da alma ou da mente (que permanece, por mais tempo, no território da filosofia e da teologia).

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O corte cartesiano e suas consequências para a medicina

3.1 Descartes e a res cogitans / res extensa

Nenhum outro momento da história do pensamento ocidental é tão frequentemente citado na literatura psicossomática quanto a filosofia de René Descartes (1596-1650). No Discurso do Método e nas Meditações Metafísicas, Descartes propõe uma distinção radical entre duas substâncias: a res cogitans (a substância pensante, a mente, a alma) e a res extensa (a substância extensa, material, o corpo, sujeito às leis da física e da mecânica). Essa divisão, conhecida como dualismo cartesiano, teve um efeito extraordinário sobre o desenvolvimento da ciência ocidental: ao "libertar" o corpo de qualquer determinação anímica ou espiritual, ela tornou possível estudá-lo como uma máquina, sujeita a leis mecânicas observáveis e mensuráveis — um passo decisivo para o desenvolvimento da fisiologia, da anatomia patológica e, mais tarde, da medicina experimental.

O preço dessa libertação metodológica, contudo, foi alto. Ao separar radicalmente res cogitans e res extensa, o dualismo cartesiano tornou conceitualmente problemático explicar como uma substância pensante (imaterial) poderia influenciar uma substância extensa (material), e vice-versa. Descartes tentou resolver esse problema postulando a glândula pineal como sede da interação entre as duas substâncias — uma solução que já a seus contemporâneos pareceu insatisfatória, e que a ciência posterior não confirmou. Mas o problema de fundo — como pensar a causalidade entre psiquismo e corpo — permaneceu como uma herança incômoda, que atravessa, ainda hoje, os debates da psicossomática.

3.2 O legado dualista na formação médica contemporânea

É importante que o aluno compreenda que o dualismo cartesiano não é apenas um capítulo da história da filosofia: ele é uma matriz que organizou, e em larga medida ainda organiza, a estrutura institucional da medicina ocidental. A separação entre especialidades "orgânicas" e especialidades "mentais" (a psiquiatria, historicamente segregada do restante da medicina em hospitais e currículos separados), a lógica do encaminhamento ("não achei nada nos exames, deve ser psicológico"), e mesmo a própria linguagem cotidiana da clínica ("descartar causa orgânica" antes de pensar em fatores emocionais) são heranças diretas dessa cisão.

A psicossomática, como projeto intelectual e clínico, pode ser lida, em grande medida, como uma tentativa sistemática de reparar essa fratura — não negando as conquistas metodológicas que o dualismo tornou possíveis (a medicina baseada em evidências, a fisiologia experimental, a farmacologia), mas questionando sua adequação como modelo explicativo completo do adoecimento humano. Essa tensão entre reconhecer os ganhos do modelo biomédico e superar seus limites será um fio condutor de todo este curso.

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O século XIX: o terreno se prepara

4.1 Neurastenia, histeria e a crise da nosologia organicista

Ao longo do século XIX, a medicina europeia — cada vez mais confiante em seu arsenal anatomoclínico — passou a se deparar, com crescente frequência, com pacientes que apresentavam sofrimento e incapacidade funcional significativos sem que se conseguisse identificar uma lesão orgânica correspondente. Dois quadros nosológicos tornaram-se emblemáticos dessa situação: a neurastenia, descrita pelo neurologista norte-americano George Miller Beard em 1869 como um estado de exaustão do sistema nervoso associado à vida moderna e a suas exigências, e a histeria, objeto de intenso escrutínio médico ao longo de todo o século, sobretudo em sua vertente feminina.

Esses quadros colocaram a medicina organicista diante de um dilema epistemológico: ou se admitia que havia formas de sofrimento e disfunção que escapavam ao paradigma lesional (e isso exigiria um novo modelo explicativo), ou se insistia em buscar uma lesão ainda não descoberta (mantendo o paradigma intacto, mas às custas de uma frustração diagnóstica crescente). Foi nesse contexto de crise que emergiram as condições intelectuais para o nascimento da psicossomática.

4.2 Charcot, a Salpêtrière e o corpo como palco

Jean-Martin Charcot (1825-1893), à frente do serviço de neurologia do hospital da Salpêtrière, em Paris, dedicou-se sistematicamente ao estudo da histeria, buscando demonstrar sua natureza neurológica através de observação clínica meticulosa, fotografia e demonstrações públicas dos sintomas — as célebres "lições de terça-feira". Charcot compreendia a histeria como uma condição hereditária e neurológica, e seu trabalho, apesar de hoje ser lido com ressalvas importantes quanto ao caráter espetacularizado de suas demonstrações, teve um papel decisivo: legitimou a histeria como objeto de estudo médico sério, e não como simulação ou fraude, e atraiu para a Salpêtrière uma geração de médicos que levariam essas questões adiante — entre eles, um jovem neurologista vienense chamado Sigmund Freud, que estagiou com Charcot em 1885-1886.

É nesse encontro entre a observação clínica meticulosa de sintomas corporais sem substrato lesional evidente e a busca por uma explicação causal que se prepara o terreno para a revolução conceitual que Freud protagonizaria na década seguinte.

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Freud e a descoberta do corpo que fala

5.1 Os Estudos sobre a histeria e a conversão

Em 1895, Freud e Josef Breuer publicam os Estudos sobre a Histeria, obra fundacional tanto para a psicanálise quanto, indiretamente, para a psicossomática. A partir do tratamento de pacientes histéricas — o caso de Anna O., conduzido por Breuer, é o mais célebre —, Freud desenvolve o conceito de conversão: a ideia de que um conflito psíquico, tipicamente ligado a uma representação inaceitável para a consciência, pode ser "convertido" em um sintoma corporal, que passa a expressar simbolicamente, de forma disfarçada, aquilo que não pôde ser elaborado psiquicamente nem verbalizado.

O sintoma conversivo — uma paralisia sem correlato neurológico, uma cegueira sem lesão ocular, uma afonia sem lesão de laringe — não é, para Freud, uma invenção ou uma simulação consciente. Trata-se de uma formação de compromisso genuína, produzida por mecanismos inconscientes, que oferece ao sujeito um ganho psíquico (o chamado ganho primário, o alívio da tensão do conflito recalcado) e, frequentemente, também ganhos secundários (vantagens relacionais ou sociais derivadas do adoecimento). Essa formulação é revolucionária porque estabelece, pela primeira vez em bases teóricas sistemáticas, um mecanismo psíquico específico capaz de explicar como um conflito mental pode se traduzir em manifestação corporal — inaugurando, assim, um vocabulário e um modelo causal que influenciariam profundamente todo o desenvolvimento posterior da psicossomática.

5.2 Limites do modelo freudiano para a doença orgânica

É fundamental que o aluno compreenda, desde já, uma distinção que será retomada e aprofundada no Módulo 3 deste curso: o modelo da conversão histérica, tal como formulado por Freud, aplica-se a sintomas que mimetizam uma disfunção orgânica sem que exista lesão tecidual real (por exemplo, uma "paralisia" das pernas em que a musculatura, os nervos e a medula estão intactos). Esse mecanismo é estruturalmente diferente do que ocorre em uma doença psicossomática propriamente dita — como uma úlcera péptica, uma crise de colite ulcerativa ou um episódio de asma —, em que há, de fato, lesão tecidual ou disfunção fisiológica objetivamente identificável, e na qual fatores emocionais atuam não por meio de um mecanismo simbólico de conversão, mas por vias fisiológicas mediadas pelo sistema nervoso autônomo, pelo eixo neuroendócrino e pelo sistema imunológico — vias que serão detalhadas no Módulo 2.

O próprio Freud reconheceu essa limitação e não se dedicou sistematicamente ao estudo da doença orgânica com componente emocional, deixando esse território para ser explorado pela geração seguinte de psicanalistas — em especial pelos médicos e analistas que fundariam, já no século XX, as duas grandes escolas que estruturam o campo da psicossomática psicanalítica: a Escola de Chicago e a Escola Psicossomática de Paris.

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A Escola de Chicago: Franz Alexander e a especificidade psicodinâmica

6.1 O conceito de especificidade

Franz Alexander (1891-1964), psicanalista húngaro radicado nos Estados Unidos e fundador, em 1932, do Chicago Institute for Psychoanalysis, é a figura central da chamada Escola de Chicago. Sua obra de referência, Medicina Psicossomática: Princípios e Aplicações, publicada originalmente em 1950, sistematiza um modelo que ficou conhecido como teoria da especificidade psicodinâmica.

Segundo Alexander, determinados conflitos emocionais inconscientes específicos — e não a emoção em geral, de forma inespecífica — estariam associados ao desenvolvimento de doenças orgânicas determinadas, atuando por meio da ativação crônica do sistema nervoso autônomo. Em outras palavras: não seria "o estresse" de modo genérico que produziria uma úlcera duodenal, mas um perfil de conflito psíquico específico — nesse caso, conflitos relacionados a necessidades de dependência reprimidas — que, mantido de forma crônica, geraria hiperatividade vagal e hipersecreção ácida, favorecendo a lesão da mucosa gástrica. Essa é a essência do conceito de especificidade: cada doença psicossomática teria uma configuração psicodinâmica própria, distinta das demais.

6.2 As sete doenças psicossomáticas clássicas

A partir de extenso trabalho clínico no Chicago Institute, Alexander e colaboradores propuseram um conjunto de sete condições como paradigmáticas da abordagem psicossomática clássica — conjunto que ficou popularmente conhecido, na literatura posterior, como "as sete doenças de Chicago" (Chicago Seven ou Holy Seven). O quadro a seguir sintetiza essas condições e os perfis psicodinâmicos que lhes foram atribuídos pela escola.

Condição clínicaPerfil psicodinâmico associado (modelo clássico de Alexander)
Úlcera pépticaConflito entre necessidades de dependência/receber cuidado e um ideal de autossuficiência; frustração crônica dessas necessidades
Colite ulcerativaDificuldade em lidar com perdas e separações; necessidade de controle e de "realizar" algo para obter aprovação
Asma brônquicaConflito em torno da separação da figura materna; o sintoma como "choro contido"
Hipertensão essencialHostilidade e agressividade inconscientes cronicamente inibidas, não expressas
Artrite reumatoideHostilidade reprimida associada a intensa necessidade de controle muscular e autodomínio
Neurodermatite (dermatite atópica)Conflitos relacionados ao contato físico e à necessidade ambivalente de proximidade/afeto
HipertireoidismoAmeaça precoce à segurança e à sobrevivência; resposta de hipervigilância crônica

Quadro 1 — As sete doenças psicossomáticas clássicas segundo a Escola de Chicago. Elaborado a partir de Alexander (1989).

6.3 Críticas e legado

O modelo da especificidade, embora historicamente decisivo — foi ele que, pela primeira vez, tentou construir uma ponte sistemática e clinicamente aplicável entre psicanálise e medicina interna —, recebeu críticas importantes ao longo das décadas seguintes. A principal delas diz respeito à fragilidade empírica: estudos posteriores não conseguiram replicar de forma consistente a associação estrita entre perfis de personalidade específicos e doenças específicas, e a proposta de "personalidades tipo úlcera" ou "tipo hipertenso" acabou se revelando simplificadora diante da complexidade multifatorial hoje reconhecida na gênese dessas condições.

Ainda assim, o legado de Alexander permanece central por pelo menos três razões. Primeiro, por ter estabelecido a possibilidade metodológica de investigar empiricamente a relação entre psiquismo e doença orgânica, e não apenas especulá-la filosoficamente. Segundo, por ter antecipado, em linguagem psicanalítica, muito do que décadas depois a psiconeuroimunologia confirmaria em bases fisiológicas: que estados emocionais crônicos modulam, de fato, sistemas orgânicos por vias mensuráveis. Terceiro, por ter consolidado a ideia — hoje um pressuposto básico do campo — de que fatores emocionais crônicos, e não apenas eventos agudos, são particularmente relevantes para a compreensão do adoecimento psicossomático.

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A Escola Psicossomática de Paris: Pierre Marty

Se a Escola de Chicago buscou correlacionar conflitos psíquicos específicos a doenças específicas, a Escola Psicossomática de Paris, fundada por Pierre Marty (1918-1993) e consolidada institucionalmente com a criação, em 1972, do Instituto de Psicossomática de Paris, tomou um caminho conceitualmente distinto: em vez de perguntar "que conflito produz esta doença?", a escola parisiense passou a perguntar "que tipo de funcionamento mental torna um sujeito mais ou menos vulnerável a somatizar, seja qual for a doença?". Essa mudança de pergunta é o núcleo do que Marty chamou de investigação psicossomática, e representa um dos deslocamentos teóricos mais importantes da história do campo.

7.1 O pensamento operatório

O conceito mais conhecido da obra de Marty, desenvolvido em coautoria com Michel de M'Uzan, é o de pensamento operatório (pensée opératoire). Trata-se de um modo de funcionamento mental caracterizado pela pobreza de vida fantasmática e simbólica, por um discurso factual, voltado para a descrição objetiva de fatos e ações concretas, e por uma dificuldade marcante em associar livremente, sonhar, fantasiar ou elaborar psiquicamente os afetos. O sujeito com funcionamento predominantemente operatório não reprime ou distorce simbolicamente o conflito, como no modelo da conversão histérica — ele simplesmente carece da capacidade de mentalizá-lo, isto é, de transformar a tensão pulsional e emocional em representações psíquicas passíveis de elaboração.

Segundo Marty, é justamente essa incapacidade de mentalização, e não um conflito específico e circunscrito, que deixa o aparelho psíquico "sem recursos" diante de excitações intensas — e é essa sobrecarga não elaborada psiquicamente que se descarrega pela via somática, podendo desorganizar o funcionamento de órgãos e sistemas diversos, sem que exista necessariamente uma correspondência simbólica específica entre o conflito e o órgão afetado, como supunha o modelo de Alexander.

7.2 Mentalização e economia psicossomática

A Escola de Paris introduziu, assim, a noção de economia psicossomática, entendida como o conjunto de recursos mentais de que um sujeito dispõe, ao longo da vida, para tramitar psiquicamente suas excitações internas e externas. Um aparelho psíquico com boa capacidade de mentalização — rico em fantasia, em capacidade associativa, em elaboração simbólica dos afetos — funcionaria como um sistema de proteção relativo contra o adoecimento somático grave, absorvendo e transformando a tensão pulsional em produções psíquicas (sonhos, fantasias, sintomas neuróticos, criações simbólicas). Já um aparelho psíquico com mentalização pobre ou fragilizada — seja de modo estrutural, seja em razão de traumas ou perdas que ultrapassaram sua capacidade de elaboração — estaria mais vulnerável a descarregar essa tensão diretamente pela via corporal.

Essa formulação retoma, em linguagem psicanalítica, uma intuição já presente na epígrafe frequentemente associada a Marty: a de que "a melhor defesa do organismo é o funcionamento mental" — ou seja, que sujeitos com boas mentalizações estariam relativamente protegidos de adoecimentos graves, enquanto aqueles com mentalizações pobres ou fragilizadas apresentariam maior vulnerabilidade somática diante de situações de sobrecarga psíquica.

7.3 Depressão essencial e desorganização progressiva

Outro conceito central da obra de Marty é o de depressão essencial: um estado de desvitalização psíquica marcado não pela tristeza, pela culpa ou pela autodesvalorização típicas da depressão clínica clássica, mas por um esvaziamento afetivo silencioso, uma espécie de "apagamento" da vida pulsional, frequentemente associado a perdas significativas mal elaboradas. A depressão essencial funcionaria como um estado de vulnerabilidade máxima, no qual as defesas psíquicas habituais já não sustentam o equilíbrio do sujeito, abrindo caminho para o que Marty denominou desorganização progressiva — um processo no qual sucessivos órgãos e sistemas podem ser acometidos, em uma espécie de regressão somática que caminha, no limite, em direção a quadros orgânicos cada vez mais graves, caso não haja intervenção que permita a retomada da mentalização.

Esse modelo tem implicações clínicas importantes, que serão retomadas no módulo dedicado às abordagens terapêuticas: se o problema central não é um conflito específico a ser interpretado, mas uma insuficiência da capacidade de mentalização, o objetivo terapêutico se desloca — de "decifrar o simbolismo do sintoma" para "ajudar o sujeito a desenvolver e sustentar sua capacidade de elaborar psiquicamente aquilo que o afeta".

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Outras vozes fundamentais do campo

8.1 Winnicott: a dupla psique-soma

O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott (1896-1971), embora não seja habitualmente classificado como pertencente a nenhuma das duas grandes escolas descritas acima, ofereceu contribuições que se tornaram incontornáveis para a psicossomática contemporânea, sobretudo por sua ênfase no desenvolvimento inicial e na relação mãe-bebê. Para Winnicott, psique e soma não são, na origem do desenvolvimento humano, duas instâncias separadas que depois precisam ser "integradas": elas formam, desde o início, uma unidade que ele chamou de psique-soma, cujo amadurecimento saudável depende crucialmente da qualidade do ambiente de cuidados (holding) oferecido pela figura materna ou por seus substitutos.

Quando esse ambiente é "suficientemente bom", o bebê pode desenvolver progressivamente aquilo que Winnicott chama de personalização — a sensação de habitar o próprio corpo, de que a psique reside no soma. Falhas ambientais precoces e significativas, por outro lado, podem comprometer esse processo, produzindo o que o autor descreve como uma dissociação entre psique e soma, uma espécie de "desalojamento" psíquico em relação ao corpo que Winnicott considerava relevante para a compreensão de certas formas graves de adoecimento psicossomático e de despersonalização.

8.2 McDougall: os teatros do corpo

A psicanalista sul-africana radicada na França Joyce McDougall (1920-2011), autora da obra Teatros do Corpo, desenvolveu, em diálogo crítico com Marty e com a tradição parisiense, o conceito de que o corpo pode se tornar palco ("teatro") de conflitos psíquicos que não encontraram outra via de expressão. McDougall enfatiza, mais do que Marty, a dimensão relacional e a história do desenvolvimento emocional precoce do sujeito na compreensão da vulnerabilidade à somatização, aproximando-se, nesse ponto, das formulações winnicottianas sobre falhas ambientais primitivas.

Um conceito particularmente útil oferecido por McDougall para a prática clínica é a ideia de que certos sintomas psicossomáticos funcionam como uma tentativa desesperada — embora fracassada — de autocura psíquica: diante de um estado de sobrecarga emocional insuportável e sem representação psíquica disponível, o corpo seria mobilizado como último recurso para lidar com aquilo que a mente não consegue elaborar, numa tentativa primitiva de regulação que, paradoxalmente, produz adoecimento.

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George Engel e o modelo biopsicossocial

9.1 A crítica ao modelo biomédico

Se as escolas de Chicago e de Paris desenvolveram-se majoritariamente dentro do campo psicanalítico, foi um internista e psiquiatra norte-americano, George L. Engel (1913-1999), quem produziu a formulação que se tornaria mais amplamente influente para a medicina como um todo — inclusive fora dos círculos psicanalíticos. Em um artigo hoje clássico, publicado na revista Science em 1977 e intitulado "The need for a new medical model: a challenge for biomedicine", Engel argumenta que o modelo biomédico dominante — reducionista, centrado exclusivamente em processos biológicos mensuráveis, e que trata mente e contexto social como, na melhor das hipóteses, variáveis secundárias — é insuficiente para dar conta da complexidade real do processo saúde-doença.

Engel propõe, em seu lugar, o modelo biopsicossocial: uma proposta segundo a qual todo fenômeno de saúde e doença deve ser compreendido como resultante da interação dinâmica entre fatores biológicos (genética, fisiologia, patologia), psicológicos (personalidade, estilo de enfrentamento, história emocional, estado mental) e sociais (contexto familiar, cultural, econômico, rede de suporte). Nenhuma dessas três dimensões, para Engel, pode ser compreendida isoladamente sem perda significativa de informação clinicamente relevante.

9.2 Implicações para a prática clínica e para o ensino

A importância do modelo biopsicossocial para este curso é dupla. Em primeiro lugar, ele oferece um arcabouço conceitual mais amplo do que as formulações psicanalíticas clássicas, permitindo integrar, sob um mesmo guarda-chuva teórico, contribuições provenientes de tradições diversas — psicanalítica, cognitivo-comportamental, sistêmica, biológica — sem que seja necessário optar exclusivamente por uma delas. Em segundo lugar, e talvez mais importante do ponto de vista pedagógico, o modelo biopsicossocial deslocou-se, ao longo das últimas décadas, de uma proposta teórica de vanguarda para um pressuposto amplamente incorporado — ao menos no plano do discurso — pela formação médica e pelas diretrizes de boas práticas clínicas contemporâneas, embora sua implementação efetiva na prática cotidiana dos serviços de saúde permaneça, reconhecidamente, um desafio.

É precisamente esse hiato entre o reconhecimento teórico do modelo biopsicossocial e sua aplicação clínica concreta e sistemática que confere atualidade e relevância prática ao estudo da psicossomática: não basta afirmar, em abstrato, que "tudo está interligado" — é preciso desenvolver instrumentos conceituais e clínicos específicos para investigar, caso a caso, como essa interligação se manifesta, e é esse o propósito dos módulos avançado e específico deste curso, que darão continuidade ao conteúdo aqui introduzido.

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O campo hoje: diferenciação conceitual

Um dos maiores obstáculos ao estudo sério da psicossomática é a imprecisão terminológica que frequentemente cerca o tema, tanto no discurso leigo quanto, por vezes, no próprio discurso profissional. Esta seção tem como objetivo oferecer ao aluno um vocabulário técnico preciso, que será utilizado de forma consistente ao longo de todo o curso.

10.1 Doença psicossomática

O termo doença psicossomática, em sentido estrito, refere-se a condições em que existe uma lesão tecidual ou disfunção fisiológica objetivamente demonstrável — isto é, uma doença "real" do ponto de vista biomédico, com alterações mensuráveis por exame físico, laboratorial ou de imagem —, na qual fatores psicológicos e emocionais desempenham um papel relevante e demonstrável no desencadeamento, na manutenção, no agravamento ou na resposta ao tratamento. Exemplos clássicos incluem a doença ulcerosa péptica associada ao estresse, certas dermatoses (como a psoríase e a dermatite atópica), a asma brônquica em sua vertente psicogênica, e determinadas formas de hipertensão arterial e de doença cardiovascular. É fundamental reter que, neste sentido técnico, "psicossomático" não significa "sem base orgânica" — significa, ao contrário, uma doença organicamente real, cuja compreensão completa exige a consideração de fatores psíquicos.

10.2 Transtorno de sintomas somáticos e transtornos funcionais

Situação conceitualmente distinta é a do transtorno de sintomas somáticos (TSS), categoria introduzida pela quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, atualizado no DSM-5-TR) em substituição às antigas categorias de "transtorno de somatização" e "hipocondria". O TSS caracteriza-se pela presença de um ou mais sintomas somáticos angustiantes ou que resultam em prejuízo significativo na vida diária, acompanhados de pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos relacionados a esses sintomas — como níveis desproporcionais e persistentes de preocupação com a gravidade dos sintomas, ansiedade elevada e persistente acerca da saúde, ou tempo e energia excessivos dedicados a esses sintomas ou às preocupações com a saúde. É importante notar que, ao contrário das versões diagnósticas anteriores, o DSM-5 não exige a ausência de explicação médica para os sintomas: um sintoma pode ter, ou não, uma base orgânica identificável — o que define o transtorno é o padrão de pensamento, sentimento e comportamento excessivo em relação a esse sintoma, e não a presença ou ausência de achados objetivos.

Já os transtornos funcionais — terminologia cada vez mais utilizada em substituição a rótulos anteriores como "transtorno somatoforme" e reconhecida de forma sistemática pela 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial da Saúde — referem-se a condições em que há sintomas físicos genuínos e incapacitantes (dor crônica, fadiga, alterações do trânsito intestinal, sintomas neurológicos como fraqueza ou movimentos anormais), mas nas quais os exames complementares não evidenciam uma lesão estrutural que explique adequadamente a intensidade ou a natureza do quadro clínico. A síndrome do intestino irritável, a fibromialgia e certos transtornos neurológicos funcionais (antigamente descritos sob o rótulo de "conversão") são exemplos frequentemente discutidos nessa categoria. A ênfase contemporânea recai sobre a ideia de que esses sintomas resultam de uma alteração real no funcionamento dos sistemas nervoso, endócrino e imunológico — e não de uma simulação ou de uma questão "puramente psicológica" — ainda que fatores psicológicos e de história de vida frequentemente contribuam para seu desencadeamento e manutenção.

CategoriaO que caracterizaExemplo típico
Doença psicossomática (sentido clássico)Lesão/disfunção orgânica objetiva, com papel relevante de fatores emocionais no curso da doençaÚlcera péptica; certas dermatoses; asma
Transtorno de sintomas somáticos (DSM-5-TR)Sintoma(s) somático(s) + pensamento/afeto/comportamento excessivo em relação a eles, independente de achado orgânicoPreocupação incapacitante com sintomas cardíacos, sem doença cardíaca correspondente
Transtorno funcional (CID-11)Sintomas físicos genuínos e incapacitantes, sem lesão estrutural identificável, por alteração de funcionamento de sistemasSíndrome do intestino irritável; fibromialgia; crises não epilépticas

Quadro 2 — Diferenciação conceitual entre as principais categorias contemporâneas do campo psicossomático.

10.3 Alexitimia: um constructo transversal

Encerrando este panorama conceitual, é indispensável apresentar o constructo de alexitimia, termo cunhado pelo psiquiatra Peter Sifneos em 1973 (a palavra deriva do grego e significa, literalmente, "sem palavras para as emoções"). A alexitimia descreve um perfil caracterizado por dificuldade em identificar e descrever verbalmente os próprios estados emocionais, dificuldade em distinguir sentimentos de sensações corporais, pensamento voltado para o externo e pobreza de vida fantasiosa e simbólica — um conjunto de características que guarda evidente proximidade conceitual com o pensamento operatório descrito por Marty e M'Uzan, embora tenha se desenvolvido em uma tradição de pesquisa distinta, mais próxima da psicologia empírica e psicométrica (o instrumento mais utilizado para sua avaliação, a Escala de Alexitimia de Toronto, ou TAS-20, será apresentado no Módulo 5 deste curso).

A alexitimia não é, ela própria, uma doença ou um transtorno mental catalogado nos manuais diagnósticos oficiais — é melhor compreendida como uma dimensão de personalidade ou um traço de funcionamento psíquico, presente em graus variáveis na população geral, que atua como fator de vulnerabilidade transversal a diferentes condições psicossomáticas e a dificuldades no manejo emocional de doenças crônicas em geral.

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Uma ponte para o Módulo 2: a base biológica em perspectiva

Os modelos apresentados neste capítulo — a especificidade de Alexander, o pensamento operatório de Marty, a dupla psique-soma de Winnicott, o modelo biopsicossocial de Engel — foram formulados, em sua maioria, décadas antes de a ciência dispor de ferramentas capazes de demonstrar, em nível molecular e fisiológico, como estados emocionais crônicos efetivamente modulam sistemas orgânicos. Esse é, precisamente, o objeto da psiconeuroimunologia (PNEI), campo de pesquisa interdisciplinar que investiga as interações bidirecionais entre o sistema nervoso central, o sistema endócrino e o sistema imunológico, e que oferece hoje o substrato biológico que permite compreender, em termos fisiológicos precisos, muitas das intuições clínicas que as escolas psicanalíticas da psicossomática haviam formulado décadas antes.

O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (eixo HPA), a regulação do sistema nervoso autônomo simpático e parassimpático, e os mecanismos de comunicação entre citocinas inflamatórias e neurotransmissores serão o objeto central do Módulo 2 deste curso — Bases Neurobiológicas —, que dará continuidade direta ao conteúdo histórico e conceitual aqui apresentado, mostrando como aquilo que os pioneiros da psicossomática observaram clinicamente encontra hoje, em grande medida, correlato demonstrável na fisiologia do estresse e da regulação emocional.

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Síntese integrativa: um mapa do campo psicossomático

Para consolidar o percurso histórico-conceitual percorrido neste capítulo, apresenta-se a seguir uma linha do tempo sintética dos principais marcos discutidos, seguida de um quadro comparativo entre as duas grandes escolas psicanalíticas do campo.

Período / DataMarco
Séc. V a.C.Medicina hipocrática: teoria dos quatro humores; naturalismo médico
1596-1650Descartes: dualismo res cogitans / res extensa
1869Beard descreve a neurastenia
1885-1893Charcot e o estudo da histeria na Salpêtrière
1895Freud e Breuer: Estudos sobre a Histeria; conceito de conversão
1932Alexander funda o Chicago Institute for Psychoanalysis
1950Alexander publica Medicina Psicossomática: Princípios e Aplicações
1962-1980Marty e M'Uzan desenvolvem o conceito de pensamento operatório; consolidação da Escola de Paris
1972Fundação do Instituto de Psicossomática de Paris
1973Sifneos cunha o termo alexitimia
1977Engel publica o modelo biopsicossocial na revista Science
1980-1990McDougall (Teatros do Corpo) e consolidação da PNEI como campo de pesquisa
2013 / 2022DSM-5 (e DSM-5-TR) introduz o Transtorno de Sintomas Somáticos; CID-11 consolida a categoria de transtornos funcionais

Quadro 3 — Linha do tempo dos principais marcos históricos da psicossomática.

DimensãoEscola de Chicago (Alexander)Escola de Paris (Marty)
Pergunta centralQue conflito específico produz esta doença específica?Que funcionamento mental geral torna um sujeito vulnerável a somatizar?
Conceito-chaveEspecificidade psicodinâmicaPensamento operatório / mentalização
Via de ação principalSistema nervoso autônomo, ativado por conflito recalcado específicoInsuficiência de elaboração psíquica da excitação pulsional
Foco clínicoDoenças orgânicas específicas (as "sete doenças")Qualidade e capacidade geral de mentalização do sujeito
Principal crítica recebidaFragilidade empírica da correspondência conflito-doençaDificuldade de operacionalização e validação empírica do conceito de mentalização

Quadro 4 — Comparação entre as duas grandes escolas psicanalíticas da psicossomática.

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Vinheta clínica ilustrativa

A vinheta a seguir é fictícia e construída exclusivamente para fins didáticos, não correspondendo a nenhum paciente real; qualquer semelhança é incidental. Seu objetivo é ilustrar, de forma simplificada, como os diferentes modelos apresentados neste capítulo poderiam ser mobilizados na leitura de um mesmo caso clínico.

Um paciente de 42 anos, sem antecedentes clínicos relevantes, procura atendimento em razão de episódios recorrentes de dor epigástrica, posteriormente diagnosticados como doença ulcerosa péptica confirmada por endoscopia. Ao longo do acompanhamento, chama atenção o discurso do paciente: extremamente factual, centrado em descrições minuciosas de sua rotina de trabalho, com marcada dificuldade em nomear ou elaborar qualquer conteúdo emocional associado ao período em que os sintomas se intensificaram — período que coincide com uma sobrecarga significativa de responsabilidades familiares após o adoecimento de um dos pais.

Lido pela lente da Escola de Chicago, o caso convidaria à investigação de um conflito específico em torno de necessidades de dependência não satisfeitas, associado à hiperatividade vagal como via fisiológica de produção da lesão ulcerosa. Lido pela lente da Escola de Paris, o caso chamaria atenção, antes de mais nada, para a qualidade do funcionamento mental do paciente — o discurso operatório, a pobreza de elaboração simbólica diante de uma sobrecarga emocional real (o adoecimento do pai) — e para a possibilidade de que a via somática esteja sendo utilizada como recurso diante da insuficiência de mentalização diante desse evento. Já sob a ótica do modelo biopsicossocial de Engel, nenhuma dessas leituras psicodinâmicas dispensaria a avaliação simultânea de fatores biológicos (uso de anti-inflamatórios, infecção por Helicobacter pylori, predisposição genética) e sociais (rede de apoio disponível, condições de trabalho), que devem ser sistematicamente investigados em conjunto, e não em alternativa, aos fatores psíquicos.

Esse exercício de leitura múltipla — que será retomado e aprofundado em casos reais discutidos nos módulos avançado e específico do curso — ilustra bem o propósito deste capítulo introdutório: não fornecer uma única chave explicativa, mas equipar o aluno com um repertório histórico e conceitual amplo o suficiente para transitar, com rigor e discernimento clínico, entre diferentes tradições teóricas do campo.

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Atividades de fixação

As questões a seguir têm caráter reflexivo e discursivo, e destinam-se a apoiar a consolidação do conteúdo estudado. Recomenda-se que sejam respondidas por escrito e, sempre que possível, discutidas em grupo ou em supervisão.

  1. Explique, com suas próprias palavras, por que o dualismo cartesiano, apesar de ter impulsionado o desenvolvimento da medicina científica moderna, criou dificuldades conceituais específicas para a compreensão do adoecimento psicossomático.
  2. Compare o conceito de conversão histérica (Freud) com o conceito de doença psicossomática em sentido estrito. Em que aspectos fundamentais eles se diferenciam quanto ao tipo de manifestação corporal envolvida?
  3. Descreva, em suas próprias palavras, a diferença central entre o modelo da especificidade psicodinâmica de Alexander e o modelo do pensamento operatório de Marty.
  4. De que forma o conceito de mentalização, desenvolvido pela Escola de Paris, dialoga com o conceito de alexitimia proposto por Sifneos?
  5. Por que o modelo biopsicossocial de Engel é frequentemente descrito como uma virada epistemológica, e não apenas como mais uma teoria entre outras?
  6. Diferencie, com exemplos próprios, os três conceitos apresentados na seção sobre o campo hoje: doença psicossomática, transtorno de sintomas somáticos e transtorno funcional.
  7. Releia a vinheta clínica apresentada neste capítulo e proponha uma quarta leitura possível do caso, a partir da perspectiva winnicottiana da dupla psique-soma.
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Glossário

  • Alexitimia — Dificuldade em identificar e verbalizar estados emocionais, associada a pensamento voltado para o externo e pobreza de vida fantasiosa. Termo cunhado por Peter Sifneos (1973).
  • Conversão — Mecanismo psíquico, descrito por Freud, pelo qual um conflito inconsciente se traduz em sintoma corporal sem lesão orgânica correspondente.
  • Depressão essencial — Conceito de Pierre Marty: estado de esvaziamento afetivo silencioso, sem tristeza ou culpa evidentes, associado a alta vulnerabilidade à somatização.
  • Dualismo cartesiano — Divisão filosófica proposta por Descartes entre res cogitans (mente) e res extensa (corpo), historicamente influente na organização da medicina ocidental.
  • Especificidade psicodinâmica — Modelo de Franz Alexander segundo o qual conflitos psíquicos específicos estariam associados a doenças orgânicas específicas.
  • Mentalização — Capacidade psíquica de transformar excitações pulsionais e afetivas em representações simbólicas passíveis de elaboração.
  • Modelo biopsicossocial — Modelo proposto por George Engel (1977), segundo o qual saúde e doença resultam da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais.
  • Pensamento operatório — Conceito de Marty e M'Uzan: modo de funcionamento mental factual, pobre em simbolização e vida fantasiosa.
  • Psicossomática — Campo de estudo que investiga sistematicamente a interseção entre processos psíquicos e processos corporais no adoecimento humano.
  • Transtorno de sintomas somáticos (TSS) — Categoria diagnóstica do DSM-5-TR caracterizada por sintomas somáticos associados a pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos em relação a eles.
  • Transtorno funcional — Condição com sintomas físicos genuínos e incapacitantes sem lesão estrutural identificável, atribuída a alteração de funcionamento de sistemas orgânicos; categoria reconhecida pela CID-11.

Referências

  1. Alexander, Franz. (1989). Medicina psicossomática: princípios e aplicações. Porto Alegre: Artes Médicas.
  2. American Psychiatric Association. (2023). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 5. ed. rev..
  3. Damásio, António. (1996). O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras.
  4. Engel, George L. (1977). The need for a new medical model: a challenge for biomedicine. Science, Washington, DC, v. 196, n. 4286, p. 129-136.
  5. Freud, Sigmund; Breuer, Josef. (1996). Estudos sobre a histeria (1893-1895). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 2. Rio de Janeiro: Imago.
  6. Marty, Pierre. (1993). A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artes Médicas.
  7. Marty, Pierre; M'Uzan, Michel de. (1994). O pensamento operatório. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 165-174.
  8. McDougall, Joyce. (1996). Teatros do corpo: uma abordagem psicanalítica dos transtornos psicossomáticos. São Paulo: Martins Fontes.
  9. Mello Filho, Julio de; Burd, Miriam (org.). (2010). Psicossomática hoje. Porto Alegre: Artmed, 2. ed..
  10. Organização Mundial da Saúde. (2022). Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde: CID-11. Genebra: OMS.
  11. Porges, Stephen W. (2011). A teoria polivagal: fundamentos neurofisiológicos das emoções, apego, comunicação e autorregulação. São Paulo: Sinopsys.
  12. Sifneos, Peter E. (1973). The prevalence of 'alexithymic' characteristics in psychosomatic patients. Psychotherapy and Psychosomatics, Basel, v. 22, n. 2-6, p. 255-262.
  13. Volich, Rubens M. (2022). Psicossomática: de Hipócrates à psicanálise. São Paulo: Blucher, 8. ed..
  14. Winnicott, Donald W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves.