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Psicofarmacologia — Fármacos

Psicodélicos

Capítulo tradicional sobre psicodélicos (histórico, conceito e terminologia, classificação, mecanismos de ação e farmacocinética), seguido de revisão de literatura de agosto/2026 sobre o tema, com recorte nas seis áreas fixas do protocolo periódico do Klubbook.

Registro: KLB-PSI-ALU-E01Edição 1 — 2026-08-13PUBLICADO
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Histórico

Uso ancestral e tradicional

O emprego de substâncias psicodélicas antecede em muito a psiquiatria e a farmacologia modernas, remontando a práticas religiosas e xamânicas de diversas culturas ao redor do mundo. Entre os exemplos mais documentados estão o uso ritual do peiote (cacto que contém mescalina) por povos indígenas do norte do México e do sudoeste dos Estados Unidos, prática com milênios de continuidade e hoje protegida legalmente nos EUA para uso religioso pela Native American Church; o uso de cogumelos psilocibínicos (teonanácatl, "carne dos deuses") em rituais mesoamericanos pré-colombianos; e o uso da ayahuasca — decocção de Banisteriopsis caapi com Psychotria viridis (ou espécie análoga) — em tradições xamânicas amazônicas, hoje também presente em contextos religiosos sincréticos brasileiros (União do Vegetal, Santo Daime).

Isolamento químico e primeiras investigações científicas (séculos XIX-XX)

A mescalina foi a primeira substância psicodélica clássica a ser isolada quimicamente, em 1897, pelo farmacologista alemão Arthur Heffter, a partir do peiote. O interesse científico foi retomado décadas depois por Aldous Huxley, cujo relato pessoal de uma experiência com mescalina, publicado no ensaio The Doors of Perception (1954), tornou-se referência cultural do período.

O marco histórico central, contudo, é a descoberta do LSD (dietilamida do ácido lisérgico) pelo químico suíço Albert Hofmann, dos laboratórios Sandoz, em 1938 — sintetizado originalmente na busca por estimulantes circulatórios derivados do fungo Claviceps purpurea (esporão-do-centeio). Hofmann só percebeu os efeitos psicoativos da substância em 1943, ao absorver acidentalmente uma pequena quantidade pela pele durante a ressíntese do composto; três dias depois, testou deliberadamente uma dose em si mesmo (episódio hoje conhecido como "Bicycle Day", 19 de abril de 1943).

A era da psiquiatria biológica e da contracultura (décadas de 1950-1960)

Entre o final da década de 1940 e o final da década de 1960, o LSD e substâncias correlatas foram amplamente estudados pela psiquiatria acadêmica, investigados como possíveis auxiliares em psicoterapia, no tratamento do alcoolismo e como modelo experimental de estados psicóticos (daí o termo "psicotomimético", então corrente). Foi nesse contexto, em correspondência com Aldous Huxley, que o psiquiatra Humphry Osmond cunhou em 1957 o termo "psicodélico".

Paralelamente, a partir de meados da década de 1960, o uso recreativo e não supervisionado dessas substâncias se disseminou amplamente na contracultura ocidental. Esse mesmo período também é marcado por um capítulo mais sombrio da história das pesquisas: o programa MKUltra da CIA (revelado publicamente na década de 1970), que incluiu experimentos com LSD sem o devido consentimento informado dos participantes.

Proibição e a "idade das trevas" da pesquisa (1970 – início dos anos 2000)

Nos Estados Unidos, o Controlled Substances Act de 1970 classificou LSD, psilocibina e mescalina na Schedule I; em nível internacional, a Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 da ONU formalizou controle equivalente. A consequência prática foi a virtual paralisação da pesquisa clínica com psicodélicos por cerca de três décadas.

O "renascimento psicodélico" (a partir dos anos 2000)

A retomada da pesquisa clínica formal é geralmente situada a partir de meados da década de 2000, com marcos como o estudo de 2006 do laboratório de Roland Griffiths, na Johns Hopkins University, sobre experiências místicas induzidas por psilocibina em voluntários saudáveis. A MAPS, fundada por Rick Doblin em 1986, teve papel central em sustentar a pesquisa clínica com MDMA. A FDA concedeu à psilocibina e ao MDMA, respectivamente em 2018 e 2017, a designação de breakthrough therapy. O Oregon aprovou em referendo (Measure 109, 2020) um programa regulamentado de administração supervisionada de psilocibina fora do contexto de pesquisa clínica. A escetamina intranasal foi aprovada pela FDA em 2019 para depressão resistente ao tratamento. No Brasil, o uso religioso da ayahuasca é regulamentado desde a década de 1980, com marco normativo consolidado pela Resolução nº 1/2010 do CONAD.

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Conceito e terminologia

Não existe consenso terminológico único para esse grupo de substâncias — a escolha do termo carrega, historicamente, uma posição implícita sobre a natureza do fenômeno que a substância produz.

TermoOrigem e ênfaseUso predominante
AlucinógenoTermo farmacológico mais antigo; enfatiza a produção de alucinações — imprecisão reconhecida, já que o fenômeno mais típico é a alteração perceptiva com juízo crítico preservado, não a alucinação verdadeira sem crítica.Manuais diagnósticos e classificações regulatórias (DSM-5-TR, CID-11, convenções internacionais de controle de substâncias).
PsicodélicoCunhado pelo psiquiatra Humphry Osmond em 1957, do grego psyché (mente) + délos (manifesto) — "que manifesta a mente".Literatura de pesquisa clínica contemporânea e uso corrente na comunidade científica.
PsicotomiméticoEnfatiza a semelhança com estados psicóticos; termo típico da psiquiatria biológica das décadas de 1950-60.Praticamente em desuso; considerado impreciso.
EnteógenoCunhado em 1979, do grego éntheos (divino interior) + gen (gerar) — "que gera o divino dentro de si".Contextos de uso religioso, ritual e etnobotânico.

Na prática clínica e regulatória brasileira, "alucinógeno" permanece o termo oficial (CID-10/CID-11 e DSM-5-TR), ao passo que "psicodélico" é o termo preferido na literatura científica internacional contemporânea.

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Classificação

A classificação mais útil clinicamente combina critério químico-estrutural e mecanismo de ação farmacológico.

Classe química/farmacológicaSubstâncias representativasAlvo farmacológico principal
Triptaminas (indolaminas)Psilocibina/psilocina, DMT, LSD (ergolina)Agonismo do receptor 5-HT2A serotonérgico
FenetilaminasMescalina, 2C-B e análogos sintéticosAgonismo do receptor 5-HT2A serotonérgico
Feniletilaminas entactógenasMDMA e análogosLiberação de serotonina, noradrenalina e dopamina
Arilcicloexilaminas (dissociativos)Cetamina, escetamina, fenciclidina (PCP)Antagonismo do receptor NMDA glutamatérgico

Nota sobre a classificação diagnóstica formal: o DSM-5-TR reúne essas substâncias sob "Transtornos Relacionados a Alucinógenos", distinguindo fenciclidina (e arilcicloexilaminas análogas) de "outros alucinógenos" (LSD, psilocibina, mescalina). O MDMA é classificado entre os estimulantes, não entre os alucinógenos — reflexo de seu mecanismo de liberação de monoaminas, distinto do agonismo 5-HT2A.

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Mecanismos de ação

Cada subgrupo farmacológico atua sobre um sistema de neurotransmissão distinto, o que explica tanto as semelhanças fenomenológicas quanto as diferenças relevantes entre as experiências subjetivas que produzem.

Psicodélicos clássicos: agonismo serotonérgico 5-HT2A

O mecanismo central dos psicodélicos clássicos (LSD, psilocibina/psilocina, DMT, mescalina) é o agonismo do receptor 5-HT2A, concentrado em neurônios piramidais das camadas corticais profundas, sobretudo no córtex pré-frontal. A ativação do 5-HT2A dispara uma cascata intracelular (via Gq) que aumenta a liberação de glutamato cortical e favorece neuroplasticidade estrutural — aumento de espinhas dendríticas e conectividade sináptica —, fenômeno hoje descrito sob o conceito de "psicoplastógenos". (ref. 1)

A psilocina — metabólito ativo da psilocibina — tem sido caracterizada como agonista serotonérgico não seletivo, com ligação substancial também aos receptores 5-HT1A e 5-HT2B, além do próprio 5-HT2A/2C. (ref. 2) O LSD apresenta afinidade adicional por receptores dopaminérgicos D2 e por outros subtipos serotonérgicos, o que ajuda a explicar diferenças de perfil subjetivo — achado relevante inclusive do ponto de vista metodológico, já que ensaios comparativos recentes mostram que a psilocibina é a substância do grupo com maior taxa de "quebra funcional do cegamento" em estudos controlados, à frente do MDMA. (ref. 3)

Em nível de circuito e de rede, a chamada "hipótese do cérebro entrópico" propõe que o agonismo 5-HT2A reduz temporariamente a integridade funcional de redes de larga escala associadas à cognição autorreferencial (rede de modo padrão), favorecendo maior conectividade entre regiões cerebrais habitualmente segregadas — base neurobiológica proposta tanto para as alterações perceptivas agudas quanto para os efeitos terapêuticos mais duradouros.

MDMA: liberação de monoaminas e ocitocina

O MDMA não atua como agonista relevante do receptor 5-HT2A. Seu mecanismo primário é a reversão dos transportadores de recaptação de monoaminas (SERT, NET e, em menor grau, DAT), provocando liberação maciça de serotonina — mecanismo associado ao efeito empatogênico/pró-social —, além de noradrenalina e dopamina. Revisões mecanísticas destacam ainda a estimulação da liberação de ocitocina, proposta como correlato biológico do aumento de confiança interpessoal relatado em terapia assistida. (ref. 1)

Uma análise secundária de dois ensaios de fase 2 de terapia assistida por MDMA para TEPT mostrou que a dimensão de humor positivo — mais do que a ocorrência de experiências místicas plenas — foi o principal mediador psicológico da redução dos sintomas, sugerindo que o mecanismo terapêutico do MDMA pode depender mais do estado afetivo agudo do que de fenômenos de tipo místico propriamente ditos. (ref. 4)

Dissociativos: antagonismo NMDA e sinaptogênese glutamatérgica

Cetamina e escetamina atuam por antagonismo não competitivo do receptor NMDA do glutamato, sobretudo em interneurônios GABAérgicos corticais. Esse bloqueio provoca desinibição da transmissão glutamatérgica cortical — a "onda glutamatérgica" —, que ativa receptores AMPA e a via mTOR, resultando em sinaptogênese rápida no córtex pré-frontal: o principal candidato explicativo para a resposta antidepressiva de início rápido dessas substâncias, distinta do mecanismo monoaminérgico dos antidepressivos convencionais. (ref. 1)

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Farmacocinética (complemento)

A relação dose-resposta dos psicodélicos clássicos vem sendo mapeada com mais precisão em ensaios de fase 1 recentes. Um estudo randomizado, triplo-cego, de escalonamento de dose com psilocibina em voluntários saudáveis (5 a 20 mg) mostrou viabilidade e tolerabilidade de tarefas cognitivo-motoras até 15 mg, com prejuízo mensurável em tarefas que combinam função motora e cognitiva especificamente na dose de 20 mg — achado que ajuda a delimitar, empiricamente, a janela de dose compatível com a realização de tarefas estruturadas durante a sessão. (ref. 5)

Quanto à "microdosagem" — uso de frações sub-perceptuais (tipicamente 5–10% de uma dose plena) popularizada fora do ambiente clínico —, a evidência pré-clínica mais recente é de que a microdosagem crônica de psilocina (dias alternados por cinco semanas, em modelo animal) não alterou parâmetros comportamentais como atividade locomotora, comportamento do tipo depressivo, sociabilidade ou busca de novidade, e não aumentou a proliferação celular no giro denteado do hipocampo — indicando ausência de sustentação, até o momento, para os efeitos neuroplásticos por vezes atribuídos à prática. (ref. 2) Esse achado reforça a importância de distinguir, na leitura da literatura sobre o tema, entre dose plena (psicodélica) e microdose (subperceptual) — regimes com perfis farmacocinéticos e comportamentais distintos.

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Revisão de literatura — edição de agosto/2026

Período: últimos 12 meses · Corte: 13/08/2026 · Fontes: PubMed · Recorte: Psicodélicos · Referências: 14.

Novidades farmacológicas

O período consolida a psilocibina como o composto do grupo mais avançado na trajetória regulatória, sustentando o status de breakthrough therapy da FDA, ao lado de programas de administração em contexto de retiro estruturado dentro de ensaios já aprovados pela agência. Um levantamento de opinião entre psiquiatras mostra abertura da categoria para incorporar a substância à prática clínica, condicionada a respaldo regulatório mais firme.

  • Ensaio de fase 1/2 aprovado pela FDA testou um modelo de terapia com psilocibina em grupo, em formato de retiro, para pacientes com câncer metastático e ansiedade/depressão associadas, com resultados preliminares de segurança favoráveis. (ref. 14)
  • Levantamento com psiquiatras da Louisiana (EUA) — estado com pouca exposição prévia à pesquisa em psicodélicos — encontrou alto grau de abertura à psilocibina, mas cautela quanto ao seu uso como primeira linha de tratamento. (ref. 15)

Farmacogenética

Sem achados relevantes neste período.

Aplicações atuais

A produção do período concentra-se, de forma expressiva, na escetamina/cetamina em depressão resistente ao tratamento — já incorporadas à prática clínica —, com dados de vida real comparando-a a outras modalidades e explorando preditores de resposta.

  • Estudo retrospectivo comparando escetamina intranasal a estimulação magnética transcraniana repetitiva (rTMS) em depressão resistente encontrou resposta mais rápida com escetamina, sem diferença clara na eficácia final entre as duas modalidades. (ref. 16)
  • Coorte multicêntrica italiana de vida real não encontrou diferença nas taxas de remissão com escetamina intranasal entre pacientes com e sem transtorno de personalidade borderline comórbido, com perfil de segurança cognitiva mantido ao longo de seis meses. (ref. 17)
  • Modelos de aprendizado de máquina aplicados a uma coorte de escetamina oral em depressão resistente não conseguiram prever, de forma superior ao acaso, quais pacientes responderiam ao tratamento com as variáveis clínicas e sociodemográficas disponíveis. (ref. 18)
  • Análise de rede de sintomas em pacientes tratados com cetamina intravenosa/escetamina intranasal sugere que redes sintomáticas menos interconectadas no início do tratamento se associam a maior chance de resposta. (ref. 19)

Novas apresentações

Sem achados relevantes neste período.

Novas descobertas

Estudos pré-clínicos e metodológicos do período questionam premissas comuns sobre o grupo: um deles não encontrou benefício comportamental ou neurogênico da microdosagem crônica de psilocina em ratos, e outro documenta falhas relevantes no cegamento de ensaios clínicos com psicodélicos — achado com implicações para a interpretação de toda a literatura de eficácia da área.

  • Microdosagem crônica de psilocina em ratos Wistar, ao longo de cinco semanas, não alterou comportamento depressivo, sociabilidade ou proliferação celular no giro denteado, e produziu um discreto efeito ansiogênico. (ref. 2)
  • Ensaio comparativo randomizado e triplo-cego com psilocibina, MDMA e metilfenidato (como placebo ativo) em voluntários saudáveis encontrou cegamento funcional insuficiente, sobretudo para a psilocibina — achado relevante para a validade interna de ensaios clínicos do campo. (ref. 3)
  • Revisão mecanística sobre psicodélicos e transtorno do espectro autista discute o racional neurobiológico (ativação de 5-HT2A, interação oxitocina-serotonina, modulação glutamatérgica pela cetamina), mas conclui que a evidência direta ainda não sustenta tratamento dos sintomas nucleares do autismo. (ref. 1)
  • Estudo de fase 1 sobre função motora após doses baixas a moderadas de psilocibina em voluntários saudáveis mostrou viabilidade de tarefas motoras até 15 mg, com prejuízo em tarefas que combinam função motora e cognitiva na dose de 20 mg. (ref. 5)

Novas indicações

Para além da depressão resistente, o período traz sinais preliminares de aplicação da psilocibina em ansiedade e TEPT associados à depressão resistente, em dor de membro fantasma e em transtorno por uso de álcool, além de dados adicionais sobre os mecanismos psicológicos da terapia assistida por MDMA no TEPT.

  • Ensaio aberto com veteranos com depressão resistente ao tratamento mostrou melhora sustentada de ansiedade, qualidade de vida e sintomas de TEPT após dose única de psilocibina com suporte psicológico, embora os ganhos tenham se correlacionado majoritariamente com a melhora depressiva concomitante. (ref. 20)
  • Ensaio clínico piloto, randomizado e controlado por placebo (niacina) testou psilocibina para dor de membro fantasma, mostrando tolerabilidade aceitável e uma tendência exploratória de redução da dor, em amostra pequena. (ref. 21)
  • Intervenção com vídeo temático de natureza durante psicoterapia assistida por psilocibina para transtorno por uso de álcool aumentou o senso de conexão com a natureza dos participantes, em comparação ao ambiente padrão de sessão. (ref. 22)
  • Análise secundária de dois ensaios de fase 2 de terapia assistida por MDMA para TEPT crônico identificou a dimensão de humor positivo — mais do que experiências místicas plenas — como o principal mediador psicológico da redução de sintomas. (ref. 4)
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Aviso desta edição

Conteúdo educativo e informativo, produzido a partir de literatura científica indexada na PubMed e de literatura acadêmica padrão da psiquiatria. Não constitui recomendação de conduta clínica individual nem substitui o julgamento clínico do profissional. A maior parte das substâncias tratadas nesta edição (exceto escetamina intranasal) permanece em fase de pesquisa clínica, sem indicação terapêutica aprovada no Brasil.

Referências

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