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Psiquiatria

Transtornos Dissociativos

Revisão sobre os transtornos dissociativos: conceito e definição, contexto histórico (da histeria de Charcot e Janet ao DSM-5-TR e à CID-11), classificação nosológica comparada, quadro clínico por subtipo (amnésia dissociativa, transtorno dissociativo de identidade, despersonalização/desrealização, transtorno neurológico dissociativo, estupor e transe/transe de possessão, síndrome de Ganser), epidemiologia, etiologia (modelo trauma-dissociação, dissociação estrutural da personalidade, achados neurobiológicos e o debate sociocognitivo), avaliação clínica, diagnóstico diferencial, princípios de tratamento (modelo em fases) e situações especiais (infância e contexto cultural/religioso).

Registro: KLB-CLI-DIS-E02Edição 2 — 2026-09-16PUBLICADO
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Conceito e definição

Dissociação é o termo usado para descrever a perda, total ou parcial, da integração normal entre funções psíquicas que costumam operar de forma unificada: a memória autobiográfica, o senso de identidade, a percepção do próprio corpo e do ambiente, e o controle voluntário dos movimentos. Em condições normais, essas funções trabalham de forma coordenada, dando à pessoa a sensação de ser um agente único e contínuo no tempo. Nos transtornos dissociativos, essa coordenação se rompe: lembranças ficam inacessíveis à consciência, partes da identidade passam a funcionar de modo relativamente autônomo, ou a pessoa se sente estranha a si mesma ou ao mundo ao redor.

A dissociação não é, em si, sempre patológica. Formas leves e transitórias — como "viajar" durante uma tarefa repetitiva, absorver-se totalmente em um filme ou dirigir um trajeto conhecido sem registrar conscientemente o percurso — fazem parte da experiência humana comum. O que caracteriza o transtorno dissociativo é a intensidade, a recorrência, a ausência de controle voluntário e, sobretudo, o prejuízo clinicamente significativo que esses fenômenos causam no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

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Ideia-chave

Diferente das psicoses, nos transtornos dissociativos não há perda do juízo de realidade nem produção de conteúdos delirantes primários — a pessoa não perde contato com a realidade externa, mas sim a continuidade e o acesso integrado às suas próprias funções psíquicas.

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Contexto histórico

A trajetória conceitual dos transtornos dissociativos está entrelaçada, por mais de um século, com a história da histeria — um dos diagnósticos mais antigos e mais debatidos da medicina ocidental.

PeríodoMarco
Séc. XIX · ParisJean-Martin Charcot estuda sistematicamente a histeria na Salpêtrière, descrevendo fenômenos como paralisias, convulsões e alterações sensoriais sem correlato neurológico, que ele atribuía a uma predisposição constitucional ativada por sugestão.
1889Pierre Janet propõe o conceito de "desagregação psicológica" (dissociation), postulando que traumas psíquicos intensos poderiam fragmentar o campo da consciência, isolando grupos de ideias e memórias do fluxo consciente principal — a primeira formulação sistemática de dissociação como mecanismo psicopatológico.
Fim do séc. XIXFreud e Breuer, em Estudos sobre a histeria, desenvolvem paralelamente a noção de que sintomas conversivos representam a conversão de conflitos psíquicos reprimidos em manifestações corporais — um modelo que, décadas depois, influenciaria a separação editorial entre transtornos "dissociativos" e "conversivos".
Séc. XXO termo histeria perde progressivamente espaço nos manuais diagnósticos, sendo desmembrado em categorias mais específicas: transtornos dissociativos (foco em memória, identidade e consciência) e transtornos somatoformes/de sintomas somáticos (foco em queixas corporais).
1980O DSM-III introduz formalmente a categoria "transtornos dissociativos" e o diagnóstico de transtorno de personalidade múltipla, consolidando a separação em relação aos transtornos somatoformes.
Décadas de 1980-90Período de forte controvérsia científica sobre a validade e a etiologia do então chamado transtorno de personalidade múltipla, incluindo debates sobre memórias traumáticas recuperadas, iatrogenia e sugestionabilidade — um debate que ainda ecoa na literatura contemporânea.
1994 / 2013O DSM-IV renomeia a condição para transtorno dissociativo de identidade, buscando um termo menos sensacionalista e mais alinhado ao modelo de fragmentação da identidade; o DSM-5 (2013) mantém a categoria e refina os critérios, incorporando explicitamente estados de possessão patológica como manifestação possível do mesmo transtorno.
2019 / 2022A CID-11 da Organização Mundial da Saúde reformula significativamente o agrupamento dos transtornos dissociativos, aproximando sua estrutura à do DSM-5 e criando categorias específicas para transtorno de transe e transtorno de transe de possessão.
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Classificação nosológica

Os três principais sistemas classificatórios em uso — CID-10, CID-11 e DSM-5-TR — organizam os transtornos dissociativos de formas distintas, refletindo diferentes momentos do debate nosológico. A tabela a seguir resume o mapeamento aproximado entre eles.

CID-10 (F44)CID-11 (6B6)DSM-5-TR
F44.0 Amnésia dissociativa6B61 Amnésia dissociativa (com ou sem fuga dissociativa)300.12 Amnésia dissociativa (especificador: com fuga dissociativa)
F44.1 Fuga dissociativaIncorporada como especificador da amnésia dissociativaEspecificador de amnésia dissociativa
F44.81 (agrupado em "outros")6B64 Transtorno dissociativo de identidade300.14 Transtorno dissociativo de identidade
—6B65 Transtorno dissociativo de identidade parcialSem categoria própria (aproxima-se do TDI especificado)
F44.2 Estupor dissociativo6B62 Transtorno de transeSem categoria própria (agrupado em "outro especificado")
F44.3 Estados de transe e possessão6B63 Transtorno de transe de possessãoIncorporado ao TDI (possessão patológica)
F44.4-.7 Transtornos dissociativos do movimento, convulsões, anestesia/perda sensorial, mistos6B60 Transtorno neurológico dissociativo (motor, sensorial, de crise, cognitivo, misto)300.11 Transtorno de conversão (transtorno de sintomas neurológicos funcionais) — classificado à parte, entre os transtornos de sintomas somáticos
F48.1 Síndrome de despersonalização-desrealização6B66 Transtorno de despersonalização-desrealização300.6 Transtorno de despersonalização/desrealização
F44.8 (Síndrome de Ganser incluída aqui)6B6Y / 6B6Z Outro especificado / não especificado300.15 Outro transtorno dissociativo especificado / não especificado
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Nota sobre os quadros "conversivos"

A CID-10 tratava os antigos sintomas de conversão (paralisias, convulsões não epilépticas, anestesias) como um subtipo de transtorno dissociativo. A CID-11 mantém essa lógica, agrupando-os sob "transtorno neurológico dissociativo". Já o DSM-5-TR os separa formalmente, classificando o transtorno de conversão entre os transtornos de sintomas somáticos — uma diferença editorial importante ao consultar cada manual.

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Quadro clínico por subtipo

Amnésia dissociativa

CID-10 F44.0 · CID-11 6B61 · DSM-5-TR 300.12

Caracteriza-se pela incapacidade de recordar informações pessoais importantes, geralmente de natureza traumática ou estressante, de forma incompatível com o esquecimento comum. A amnésia costuma ser lacunar e seletiva — envolvendo um período ou evento específico — embora possa, em casos raros, ser generalizada, envolvendo toda a história de vida e a identidade pessoal. O indivíduo pode ter plena consciência da própria lacuna de memória ou, ao contrário, sequer perceber que algo falta.

Fuga dissociativa (hoje tratada como especificador, não como categoria própria): associa-se a um deslocamento físico, aparentemente proposital, para fora do ambiente habitual, com incapacidade de recordar parte ou toda a própria identidade. Durante o episódio, o comportamento costuma parecer normal a observadores desavisados; a pessoa pode até assumir temporariamente uma identidade alternativa mais simples.

Transtorno dissociativo de identidade (TDI)

CID-11 6B64 · DSM-5-TR 300.14

É a forma mais grave e mais debatida do espectro dissociativo. Define-se pela presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos (por vezes descritos, em contextos culturais específicos, como experiências de possessão), cada um com seu próprio padrão relativamente estável de perceber, relacionar-se e pensar sobre si mesmo e o ambiente. A alternância entre esses estados costuma vir acompanhada de lacunas amnésticas recorrentes para eventos cotidianos, informações pessoais importantes e eventos traumáticos, que ultrapassam o esquecimento ordinário.

Diferentemente da representação popular e midiática, a transição entre identidades raramente é teatral; é mais comum observar sinais sutis — mudanças na voz, na postura, no vocabulário, lapsos de memória perceptíveis pelo entrevistador, ou relatos de "perder tempo" sem explicação. O TDI está entre os transtornos mentais com maior associação a história de trauma grave e repetido na infância, sobretudo abuso físico, sexual ou negligência severa em fases precoces do desenvolvimento.

Transtorno de despersonalização/desrealização

CID-10 F48.1 · CID-11 6B66 · DSM-5-TR 300.6

Despersonalização: sensação persistente ou recorrente de estranhamento em relação ao próprio corpo, aos pensamentos, sentimentos ou ações — como se o indivíduo estivesse observando a si mesmo de fora, ou como se as emoções estivessem embotadas ou irreais.

Desrealização: sensação de irrealidade ou distanciamento em relação ao ambiente, que pode parecer nebuloso, sem vida, visualmente distorcido, ou como um cenário artificial.

Um ponto diagnóstico central: o teste de realidade permanece intacto durante os episódios — a pessoa sabe que a experiência é subjetiva e não corresponde a uma alteração real do mundo, o que a distingue de fenômenos psicóticos.

Transtorno neurológico dissociativo (quadros conversivos)

CID-10 F44.4-F44.7 · CID-11 6B60 · DSM-5-TR — transtorno de conversão, 300.11

Engloba alterações que mimetizam condições neurológicas — fraqueza ou paralisia de membros, movimentos anormais, distúrbios da marcha, crises não epilépticas psicogênicas, anestesias, perda de visão ou audição — sem que exames neurológicos e complementares demonstrem uma causa orgânica compatível. O diagnóstico não deve ser feito apenas pela exclusão de doença orgânica: exige-se também evidência clínica positiva de incompatibilidade entre o sintoma e padrões fisiopatológicos conhecidos (por exemplo, o sinal de Hoover na fraqueza funcional de membro inferior).

Estupor dissociativo e estados de transe / transe de possessão

CID-10 F44.2 / F44.3 · CID-11 6B62 (transe) e 6B63 (transe de possessão)

Estupor dissociativo: redução acentuada ou ausência de movimentos voluntários e de resposta normal a estímulos externos (luz, som, toque), sem substrato orgânico identificável e associada a estressores psicológicos recentes.

Transe dissociativo: perda transitória do senso habitual de identidade pessoal e de plena consciência do ambiente, com estreitamento da atenção ou comportamentos e movimentos estereotipados vivenciados como fora do controle voluntário. Transe de possessão: quando o estado é vivenciado e interpretado, pela pessoa ou por seu grupo social, como a substituição da identidade habitual por uma entidade externa (espírito, divindade, outra pessoa).

É essencial o critério de exclusão cultural: estados de transe e possessão que ocorrem de forma esperada, aceita e regulada dentro de práticas religiosas ou culturais legítimas — e que não geram sofrimento clinicamente significativo nem disfunção fora desse contexto — não configuram transtorno mental. O diagnóstico exige que o estado seja involuntário, indesejado, e que extrapole (em frequência, intensidade ou contexto) o que é normativo na cultura de origem da pessoa.

Outros quadros do espectro

CID-10 F44.8 · CID-11 6B6Y/6B6Z · DSM-5-TR 300.15

Síndrome de Ganser: quadro raro, classicamente descrito em contexto forense/carcerário, caracterizado por respostas aproximadas ("vorbeireden" — respostas quase certas, mas sistematicamente erradas, a perguntas simples), frequentemente acompanhado de alteração da consciência, amnésia e, por vezes, pseudoalucinações.

Esta categoria residual também acolhe quadros dissociativos que não preenchem integralmente os critérios dos subtipos anteriores, mas que causam sofrimento e prejuízo clinicamente relevantes.

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Epidemiologia

Os transtornos dissociativos, tomados em conjunto, não são raros: estudos populacionais situam a prevalência ao longo da vida em torno de alguns pontos percentuais da população geral, variando conforme o subtipo e o instrumento de rastreio utilizado. O transtorno de despersonalização/desrealização, em sua forma transitória e leve, é relativamente comum na população geral, sobretudo em situações de estresse agudo, privação de sono ou uso de substâncias; sua forma clinicamente significativa e persistente é bem menos frequente. O transtorno dissociativo de identidade, por sua gravidade e pela dificuldade histórica de reconhecimento clínico, é provavelmente subdiagnosticado — pacientes costumam passar por múltiplos serviços de saúde mental, com diagnósticos alternativos (transtornos de humor, ansiosos, de personalidade ou psicóticos), antes de receberem o diagnóstico correto, muitas vezes anos após o início dos sintomas.

Há associação consistente, em praticamente todos os subtipos, com histórico de trauma — especialmente trauma interpessoal repetido e de início precoce (abuso físico, sexual, negligência emocional grave, testemunho de violência doméstica). Comorbidades são a regra, não a exceção: transtorno de estresse pós-traumático, depressão, transtornos de ansiedade, transtorno de personalidade borderline e transtornos por uso de substâncias frequentemente coexistem com quadros dissociativos.

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Etiologia e modelos explicativos

Modelo trauma-dissociação

O modelo etiológico com maior sustentação empírica associa a dissociação patológica a experiências traumáticas — sobretudo quando repetidas, interpessoais e ocorridas em fases precoces do desenvolvimento, período em que os sistemas de regulação emocional e de integração da identidade ainda estão em formação. A dissociação seria, nesse quadro, um mecanismo de defesa adaptativo no momento do trauma (permitindo distanciamento psíquico de uma experiência insuportável), que se torna disfuncional quando persiste e se generaliza para além da situação original.

Teoria da dissociação estrutural da personalidade

Proposta por Onno van der Hart, Ellert Nijenhuis e Kathy Steele, essa teoria descreve a dissociação patológica como uma divisão da personalidade em pelo menos duas partes funcionalmente distintas: uma "parte aparentemente normal" (ANP), voltada para o funcionamento cotidiano e a evitação de lembranças traumáticas, e uma ou mais "partes emocionais" (EP), fixadas em estados defensivos relacionados ao trauma (luta, fuga, congelamento, submissão). Quanto maior a gravidade e a repetição do trauma, maior tende a ser o grau de fragmentação — desde uma dissociação estrutural primária (mais simples, como no TEPT) até formas secundárias e terciárias (mais complexas, como no TDI).

Contribuições neurobiológicas

Estudos de neuroimagem sugerem dois padrões de resposta neural ao processamento emocional em quadros dissociativos relacionados a trauma: um padrão de hiperativação límbica com hipoativação do córtex pré-frontal (típico de reexperienciação intrusiva) e um padrão inverso, de hiperregulação/inibição cortical excessiva sobre estruturas límbicas, associado a estados de embotamento e despersonalização — este último proposto como um possível correlato neural específico do "subtipo dissociativo" de TEPT e de fenômenos de despersonalização.

Fatores de vulnerabilidade e controvérsia sociocognitiva

Uma linha crítica alternativa — o chamado modelo sociocognitivo — argumenta que a apresentação florida do TDI, em particular, pode ser moldada ou amplificada por expectativas culturais, sugestão terapêutica e dinâmicas iatrogênicas, sem negar necessariamente a existência de dissociação patológica genuína. Esse debate, historicamente intenso nas décadas de 1980-90, hoje tende a ser tratado de forma menos polarizada: reconhece-se tanto a base traumática robusta da maioria dos casos quanto a necessidade de cautela metodológica na avaliação e no manejo terapêutico, evitando técnicas sugestivas na investigação de memórias.

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Avaliação clínica

A entrevista clínica continua sendo o pilar da avaliação, mas exige perguntas dirigidas: pacientes com sintomas dissociativos raramente relatam espontaneamente lacunas de memória, sensação de despersonalização ou alternância de identidade — muitas vezes por não perceberem esses fenômenos como anormais, por vergonha, ou por amnésia para os próprios episódios dissociativos. Sinais de alerta incluem: história de "perder tempo" inexplicável, objetos ou roupas que aparecem sem lembrança de tê-los adquirido, relatos de terceiros sobre comportamento incongruente com o que o paciente recorda, flutuações marcantes de humor ou de habilidades (por exemplo, letra ou sotaque diferentes), e um histórico extenso e pouco responsivo de tratamentos prévios para outros diagnósticos.

Instrumentos estruturados auxiliam tanto o rastreio quanto o diagnóstico formal:

  • DES (Dissociative Experiences Scale): instrumento de autorrelato amplamente usado para rastreio, mede a frequência de experiências dissociativas no cotidiano.
  • SCID-D (Structured Clinical Interview for DSM Dissociative Disorders): entrevista clínica estruturada, padrão-ouro para o diagnóstico diferencial entre os subtipos de transtorno dissociativo.
  • MID (Multidimensional Inventory of Dissociation): instrumento extenso voltado à caracterização detalhada de sintomas dissociativos complexos, incluindo fenômenos de passividade e influência.
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Diagnóstico diferencial

CondiçãoPontos de diferenciação
Transtornos psicóticosNos quadros dissociativos, o teste de realidade permanece preservado; não há delírios sistematizados nem alucinações típicas de primeira ordem. "Vozes" internas, quando relatadas no TDI, costumam ser percebidas como vindas de dentro de si (egodistônicas a diferentes estados do self), diferindo fenomenologicamente das alucinações auditivas esquizofrênicas.
Epilepsia (sobretudo do lobo temporal)Crises epilépticas costumam ter padrão estereotipado, alterações eletroencefalográficas correspondentes, e frequentemente sinais físicos (mordedura de língua lateral, incontinência, período pós-ictal característico) ausentes nas crises dissociativas/não epilépticas.
Transtorno de estresse pós-traumáticoSintomas dissociativos (flashbacks, embotamento, amnésia) podem ocorrer dentro do TEPT — inclusive há um especificador "com sintomas dissociativos" no DSM-5-TR — mas nos transtornos dissociativos propriamente ditos a fragmentação de memória ou identidade é o fenômeno central e predominante, não um sintoma acessório.
Transtorno de personalidade borderlineSintomas dissociativos transitórios relacionados a estresse são um critério diagnóstico do TPB; a diferenciação com TDI depende da presença ou ausência de estados de identidade verdadeiramente distintos e de amnésia interestado consistente.
Transtornos por uso de substâncias e causas orgânicasIntoxicação, abstinência, delirium, epilepsia, tumores, lesões cerebrais e certas condições metabólicas podem produzir fenômenos dissociativos secundários — devem ser rastreados e excluídos antes de firmar o diagnóstico primário.
Simulação e transtorno factícioNa simulação há motivação externa identificável (benefício secundário, evitação de responsabilidade legal); no transtorno factício, a produção intencional de sintomas visa assumir o papel de doente. Ambos diferem dos transtornos dissociativos genuínos pela intencionalidade consciente na produção dos sintomas — uma distinção clinicamente difícil, que exige avaliação longitudinal cuidadosa.
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Princípios de tratamento

Não existe medicação específica aprovada para os transtornos dissociativos; o tratamento farmacológico é dirigido a sintomas e comorbidades associadas (por exemplo, sintomas depressivos, ansiosos ou intrusivos do TEPT comórbido), nunca ao fenômeno dissociativo em si. O eixo do tratamento é psicoterapêutico.

Modelo de tratamento em fases (orientação trauma-informada)

Para quadros dissociativos complexos, sobretudo o TDI, as diretrizes da International Society for the Study of Trauma and Dissociation (ISSTD) recomendam um tratamento estruturado em três fases, não necessariamente lineares:

  1. Estabilização e segurança: construção de aliança terapêutica, psicoeducação sobre dissociação, desenvolvimento de recursos de regulação emocional e manejo de crises (incluindo risco de autolesão e suicídio, mais prevalente nesta população), antes de qualquer abordagem direta do material traumático.
  2. Processamento das memórias traumáticas: trabalho gradual e cuidadoso com as experiências traumáticas subjacentes, em ritmo tolerável, evitando reexposição desregulada.
  3. Integração e reabilitação: consolidação de um senso de identidade mais coeso, luto pelo tempo e pelas relações afetadas pelo transtorno, e reconstrução da vida social e ocupacional.

Cautelas técnicas

Técnicas sugestivas de recuperação de memória (hipnose direcionada a "desenterrar" lembranças, por exemplo) devem ser evitadas ou usadas com extrema cautela, dado o risco de criação de memórias falsas — uma lição central herdada do debate das décadas de 1980-90. A abordagem deve ser colaborativa, centrada na estabilização e na função, e não na busca ativa por revelações traumáticas dramáticas.

Hipnose como recurso de estabilização: o "lugar seguro" ancorado

Dentro da fase 1 (estabilização), a hipnose clínica tem um uso bem descrito na literatura que se aproxima da ideia leiga de um "botão de resgate interno": a construção de uma imagem multissensorial de lugar seguro (safe place), associada em seguida a uma âncora pós-hipnótica — um gesto, uma palavra-chave ou um padrão respiratório — que o paciente aprende a acionar sozinho, fora da sessão, para retornar rapidamente a um estado de calma e regulação autonômica.

Clínicos especializados em transtorno dissociativo de identidade costumam ser fluentes exatamente nesse repertório — hipnose para estabilização, manejo do afeto, construção do lugar seguro e técnicas de grounding —, usado como base antes de qualquer processamento direto do material traumático, inclusive em protocolos que combinam hipnose com EMDR (ref. 9).

Um relato de caso recente de TEPT crônico com sintomas dissociativos ilustra bem o mecanismo: sempre que surgiam sinais de desrealização ou desconexão emocional durante a exposição gradual ao trauma, o paciente era guiado de volta à imagem do lugar seguro para restaurar a estabilidade emocional; com o uso repetido, ele passou a entrar nesse estado calmo cada vez mais rápido (ref. 10).

O mecanismo também já foi testado formalmente fora do contexto dissociativo: em ensaio controlado com 60 participantes, uma única sessão de hipnose estabelecendo uma sugestão pós-hipnótica de segurança (a "Âncora de Segurança de Jena") reduziu significativamente o estresse subjetivo durante uma tarefa de estresse social agudo, com o efeito ainda presente uma semana depois e independente do grau de sugestionabilidade do participante — um indício de que o recurso funciona como uma habilidade estável, e não apenas como um efeito passageiro da sessão (ref. 11).

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Leitura clínica

A evidência disponível sustenta a âncora de segurança como recurso de estabilização e regulação — útil para reduzir ativação autonômica e interromper episódios dissociativos incipientes — e não como técnica de acesso ou "resgate" de memórias traumáticas, papel que continua sujeito às mesmas cautelas já descritas acima.

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Situações especiais

Crianças e adolescentes

Sintomas dissociativos na infância podem se manifestar de forma menos organizada do que no adulto — amigos imaginários persistentes e intensos, alterações abruptas de comportamento, "transes" durante o brincar, ou lacunas de memória para eventos do dia a dia. A avaliação deve sempre considerar contexto de maus-tratos ou negligência, mantendo em vista a alta prevalência de trauma precoce na etiologia desses quadros.

Contexto cultural e religioso

Estados de transe e possessão, vivência de identidades alternativas percebidas como espirituais, e experiências dissociativas ritualizadas fazem parte de práticas religiosas legítimas em diversas tradições — inclusive no contexto brasileiro, onde manifestações desse tipo estão presentes em práticas afro-brasileiras, espíritas e em correntes carismáticas de diferentes credos. O diagnóstico psiquiátrico não deve patologizar essas experiências quando elas são culturalmente esperadas, voluntárias em seu contexto ritual, e não produzem sofrimento clinicamente significativo fora dele. A linha diagnóstica está no sofrimento, na perda de controle indesejada e no prejuízo funcional que extrapolam o que é normativo naquele grupo cultural.

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Aviso

Conteúdo educativo destinado a profissionais e estudantes de saúde mental. Não substitui a avaliação clínica individualizada, a formação especializada em trauma e dissociação, nem supervisão clínica para o manejo de casos complexos, especialmente de transtorno dissociativo de identidade.

Referências

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  2. Organização Mundial da Saúde. (1993). Classificação Internacional de Doenças, 10ª revisão (CID-10) — Capítulo V, categorias F44 (Transtornos dissociativos [de conversão]) e F48.1 (Síndrome de despersonalização-desrealização). Genebra: OMS.
  3. Organização Mundial da Saúde. (2022). Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão (CID-11) — Bloco 6B60-6B6Z, Transtornos dissociativos. Genebra: OMS.
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  10. Kabeche, L.; Nedjari, M. (2026). Hypnotherapy as an Adjunctive Treatment for Chronic Post-traumatic Stress Disorder With Dissociative Symptoms: A Case Report. Cureus, v. 18, n. 6, e111639. link
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