Sudorese como efeito adverso de psicofármacos
Capítulo mestre sobre sudorese induzida por psicofármacos: mecanismos fisiopatológicos (serotoninérgico, noradrenérgico, colinérgico e termorregulação central), perfil por classe/fármaco, atualizações da literatura dos últimos 24 meses e notas para a abordagem clínica.
Mecanismos fisiopatológicos
Base: Acervo clínico + PubMed · Literatura: últimos 24 meses · Corte: 11/08/2026 · Referências: 7.
A sudorese induzida por psicofármacos converge de pelo menos quatro vias, muitas vezes sobrepostas num mesmo agente. A potenciação serotoninérgica central (5-HT2A hipotalâmico) eleva o set-point termorregulador e aumenta o tônus simpático colinérgico para as glândulas écrinas — mecanismo comum a ISRS, ISRSN, IMAOs e psicoestimulantes, e levado ao extremo na síndrome serotoninérgica, em que a sudorese profusa é sinal cardinal ao lado de agitação, hipertermia e rigidez muscular (ref. 7). O bloqueio da recaptação de noradrenalina aumenta o tônus adrenérgico periférico sobre as glândulas écrinas, somando-se ao efeito serotoninérgico em ISRSN e tricíclicos. O estímulo colinérgico direto sobre receptores muscarínicos M3 das glândulas écrinas explica a sudorese proeminente de agentes com componente pró-colinérgico central (como a clozapina) e de agonistas muscarínicos como o xanomeline, cujo componente periférico só é contido por um anticolinérgico associado (ref. 3,4). Por fim, a disfunção termorreguladora central mediada por bloqueio dopaminérgico/serotoninérgico hipotalâmico contribui no perfil de antipsicóticos, e mecanismos periféricos ainda pouco explorados na psicofarmacologia — como o desequilíbrio Th17/Treg e de cotransportadores iônicos (NKCC1/KCC2) já descritos na hiperidrose primária focal — sugerem via de investigação futura para a sudorese induzida por fármacos.
Tabela por classe / fármaco
| Classe / fármaco | Mecanismo predominante | Observação clínica |
|---|---|---|
| ISRS (sertralina, paroxetina, fluoxetina) | Serotoninérgico central | Efeito comum, dose-relacionado; presente mesmo em doses supraterapêuticas, sem diferença de intensidade entre as faixas de dose (ref. 1) |
| ISRSN (venlafaxina, duloxetina) | Serotoninérgico + noradrenérgico | Tende a ser mais intensa que nos ISRS isolados, pela soma dos dois mecanismos |
| Tricíclicos | Noradrenérgico / anticolinérgico misto | Sudorese noturna descrita classicamente; perfil paradoxal frente ao efeito anticolinérgico geral da classe |
| Antipsicóticos atípicos (clozapina) | Colinérgico/muscarínico + termorregulação central | Sudorese e hipersalivação proeminentes; primeiro relato de urticária colinérgica desencadeada por sudorese sob clozapina, resolvida com troca para quetiapina (ref. 3) |
| Xanomeline/trospium (Cobenfy) | Agonismo muscarínico central (xanomeline) + bloqueio periférico (trospium) | Sudorese é efeito colinérgico periférico esperado do xanomeline, mitigado pela trospium associada; doses maiores de trospium podem trazer efeitos periféricos adicionais (ref. 4) |
| Lítio | Não totalmente elucidado (possível efeito sobre glândulas écrinas) | Sudorese integra o perfil dermatológico do fármaco, junto a erupções acneiformes |
| Metadona (manutenção em dependência de opioides) | Opioide central/periférico | Efeito colateral comum e subnotificado; troca para levometadona em dose equivalente reduziu marcadamente a sudorese em relato de caso recente (ref. 2) |
| Psicoestimulantes | Simpaticomimético/noradrenérgico | Consistente com o perfil adrenérgico geral da classe |
| MDMA (uso assistido por psicoterapia, TEPT — ainda não aprovado no Brasil) | Serotoninérgico/simpaticomimético agudo | Sudorese excessiva entre os efeitos agudos mais relatados nos ensaios de fase 3 (ref. 5) |
Atualizações da literatura (24 meses)
- Estudo retrospectivo com 105 pacientes com TOC em doses supraterapêuticas de ISRS (sertralina >200 mg/dia e equivalentes) registrou sudorese em 19% da amostra, sem diferença entre as três faixas de dose avaliadas — reforça que o efeito, embora dose-relacionado, tende a platô em doses altas. (ref. 1)
- Relato de caso descreveu redução marcante da sudorese após substituição de metadona por levometadona em dose equivalente, sugerindo menor impacto sudorípero do isômero levógiro isolado. (ref. 2)
- Primeiro relato publicado de urticária colinérgica desencadeada por sudorese em paciente sob clozapina, quatro meses após início do tratamento, resolvida com a troca para quetiapina. (ref. 3)
- Revisão sobre o xanomeline/trospium (Cobenfy), novo agente não dopaminérgico aprovado nos EUA para esquizofrenia, detalha a sudorese como efeito colinérgico periférico esperado do xanomeline e o papel da trospium em conter esse e outros efeitos periféricos. (ref. 4)
- Atualização de psicofarmacologia cataloga a sudorese excessiva entre os efeitos agudos mais comuns da psicoterapia assistida por MDMA em fase 3 para TEPT, ao lado de tensão muscular e inapetência. (ref. 5)
- Revisão sobre anticolinérgicos orais usados no manejo de hiperidrose discute a associação — ainda não conclusiva — entre uso crônico dessa classe e risco de demência, achado relevante ao ponderar o manejo de sudorese induzida por psicofármacos em pacientes idosos. (ref. 6)
- Revisão sobre síndrome serotoninérgica reforça a sudorese profusa como sinal cardinal do quadro e alerta para subdiagnóstico entre prescritores, dado o número crescente de combinações serotoninérgicas em uso clínico. (ref. 7)
Notas para a abordagem clínica
A literatura recente converge para estratégias gerais — não uma conduta única — diante de sudorese induzida por psicofármacos: redução de dose quando o efeito for dose-dependente; troca de agente dentro ou entre classes quando o impacto funcional for significativo (clozapina→quetiapina, metadona→levometadona); cautela com anticolinérgicos periféricos em idosos, pela possível associação com risco de demência; e reconhecimento precoce da sudorese profusa como sinal de alerta para síndrome serotoninérgica quando acompanhada de agitação, hipertermia ou rigidez muscular, especialmente em esquemas com múltiplos agentes serotoninérgicos.
Referências
- Levy DM, Ben Arush O, Carmi L, Wetzler AJ, Zohar J. (2024). Off-label higher doses of serotonin reuptake inhibitors in the treatment of obsessive-compulsive disorder: Safety and tolerability. Compr Psychiatry. 2024;133:152486. link
- Serfilippi T, Piccirillo S, Romagnoli F, Tarini M, Lariccia V, Magi S. (2025). Switching to levomethadone improves methadone-induced hyperhidrosis: A case report. J Addict Dis. 2025;44(1):101-105. link
- El Ouni Amami N, Ali-Diabacte H, Ateb S, et al. (2024). Clozapine-induced cholinergic urticaria: a case report. Ther Adv Psychopharmacol. 2024;14. link
- Miron AA, Ifteni PI, Nguyen T, Dima L. (2025). Xanomeline/Trospium (Cobenfy): A Novel Approach for the Treatment of Schizophrenia in Adults. Am J Ther. 2025;32(6):e525-e535. link
- DeBattista C, Schatzberg AF. (2024). The Black Book of Psychotropic Dosing and Monitoring. Psychopharmacol Bull. 2024;54(3):8-59. link
- Del Boz J, Bautista Vidal JC. (2025). [Translated article] Hyperhidrosis, Anticholinergics, and Dementia. Actas Dermosifiliogr. 2025;116(9):T985-T989. link
- Badar A. (2024). Serotonin syndrome: An often-neglected medical emergency. J Family Community Med. 2024;31(1):1-8. link